SUÍÇA - capítulo do livro A SOLUÇÃO DE TUDO – EmGaia
Suíça – uma inspiração
Porque a Suíça?
Durante minha
busca por um modelo de sociedade ideal, reuni um conjunto de valores que me pareceram
capazes de resolver os principais problemas sociais da modernidade. Aos poucos,
fui percebendo que muitos destes valores eram cultuados na nação suíça. Isto me
levou a um estudo mais detalhado sobre diversos aspectos da história e da
cultura deste país.
Além disso, o
fato de a Suíça estar entre os primeiros lugares nos indicadores de felicidade,
bem-estar e qualidade de vida confirmaram minhas conclusões. Não estou
afirmando que a Suíça é perfeita, mesmo porque, nela coexistem diversas
comunidades com modelos sociais distintos. Como alguns pesquisadores afirmam, os
mecanismos de democracia e participação popular suíça, permitiram que seus
estados (cantões) e cidades (comunas) assumissem diferentes estruturas. Isto
tornou a Suíça um imenso laboratório de cidadania e democracia.
Há séculos,
muitas das suas microcidades funcionam como tribos e guardam profunda simetria
com os ideais do projeto EmGaia, principalmente as da região nordeste,
fronteira com Alemanha e Áustria. Elas são a prova concreta de que a qualidade
de vida e a prosperidade podem ser conseguidas facilmente e beneficiar a todos,
basta que o espirito de comunidade atinja um nível tribal dando espaço a fortes
laços de união e compaixão. Por tais motivos, escolhi usá-las como base
inspiradora.
Ainda assim, nossa
proposta é mais ampla. Esta prosperidade precisa ser facilmente replicável e
ser resistente às tentações do mundo moderno. Frente a nossa ameaça de extinção
eminente, ela precisa garantir o foco na perpetuação e na harmonia da
humanidade com a natureza. Isto implica implantar uma nova cultura com
novos valores. Neste contexto, a Filosofia EmGaia é o complemento chave
que pode nos levar além.
Juntos, o dueto
filosofia e o projeto EmGaia formam uma solução sólida, prática e amplamente
replicável que todas as pessoas de bom senso verão com bons olhos.
Para darmos
início a nossos estudos sobre a Suíça, deixo este texto que publiquei há algum
tempo:
“Suíça, um
país sem analfabetos, referência mundial em educação, com um dos melhores
índices de qualidade de vida e detentora de índices de pobreza e criminalidade
quase zero. É considerada por muitos “o primeiro mundo do primeiro mundo”.
Qual o segredo de tanto sucesso?
Apesar de a Suíça parecer existir em uma fenda temporal, um mundo
à parte onde a humanidade vive mil anos à frente, este pequeno país fundado por
camponeses guerreiros reuniu em sua história sábios valores culturais. O
repúdio à concentração de poder, seja político, religioso ou militar, parece
ter sido o mais significativo, e talvez o seu valor de maior sabedoria rumo à
justiça social!
Após meus estudos sobre o tema, eu diria que o sucesso da Suíça
está em uma cultura voltada a quatro valores: ser autossuficiente, viver
comunitariamente, decidir diretamente e o povo ser o próprio exército, nutrindo
profundo treinamento e respeito às armas. Para eles, cooperativismo, autogestão
e autodefesa é a fórmula para manter toda forma de poder diluído igualmente por
toda população, garantindo a todos a igualdade de poder. Infelizmente, o nosso
e os demais sistemas políticos da atualidade se sustentam na concentração do
poder e no fluxo de poder “de cima para baixo”.
Concentração de poder é um perigo! Quando vamos amadurecer e
perceber que este é o motivo maior das nossas desgraças sociais?
Origem dos Valores Suíços
A Suíça é um país
pequeno e sem mar, situado no centro da Europa. Faz fronteira com a Alemanha ao
norte, Itália ao sul, França ao oeste e Áustria e Liechtenstein ao leste.
Possui quatro línguas oficiais.
O alemão é a
língua mais falada do país (63.7% da população), seguida do francês (20.4%),
italiano (6.5%) e romanche (0.5%).
Seu território é
menor que o estado do Rio de Janeiro e grande parte é quase inabitada. São
cordilheira de alpes, montanhas de gelo e neve com uma altitude média de 1.700
metros que cobrem mais da metade da totalidade da sua área.
O planalto suíço,
que ocupa um terço da área do país, é o onde reside mais de dois terços da
população. O terreno e o clima dificultam não só a vida, mas fazem com que
menos de 10% de seu território seja próprio para agricultura. Ainda assim, a
Suíça é um dos países mais ricos do mundo. Sua economia baseia-se no setor de
serviços e indústrias. Dos serviços, podemos destacar as seguradoras e bancos
conhecidos mundialmente pelo alto nível de segurança como o United Bank of Switzerland (UBS). No
setor produtivo, se destacam as indústrias químicas, farmacêuticas,
alimentícias e de tecnologia de precisão. Rolex, Novartis e Nestlé são
multinacionais conhecidas mundialmente.
A educação e a
pesquisa científica sempre foram prioridade na cultura suíça. Ela sedia o CERN,
maior laboratório de física de partículas do mundo, responsável por quase todas
as grandes descobertas da atual física quântica, e sua famosa Feira Mundial de
Inventores abre espaço a inventores de garagem, valorizando a inventividade
onde quer que ela esteja.
Curiosidade:
Albert Einstein desenvolveu grande parte de suas teorias - como a da
relatividade - enquanto estudava e trabalhava na Suíça. Nascido em uma família
de judeus alemães, mudou-se para a Suíça ainda jovem e iniciou seus estudos na
Escola Politécnica de Zurique. Posteriormente, cursou doutorado da Universidade
de Zurique enquanto trabalhava como perito técnico no Escritório de Marcas e
Patentes Suíço.
A Democracia Suíça
A Suíça possui um
território pouco menor que o estado do Rio de Janeiro, sendo mais de 30% do seu
território composto por alpes de difícil acesso. Enquanto o Rio de Janeiro se
subdivide em 92 cidades, a Suíça se subdivide em mais de 2300 cidades (muitas ainda
se subdividem em comunas) distribuídas em 26 estados (cantões) que funcionam
como países independentes.
A democracia
suíça é qualificada como semidireta. Isso significa que os dois sistemas
coexistem: o da democracia direta, onde os cidadãos se exprimem
diretamente e o da democracia representativa, onde eles delegam uma parte dos
poderes a candidatos eleitos.
Devido à aversão à
concentração de poder individual, o Poder Executivo Federal é composto por sete
membros que se revezam anualmente para a função de presidente.
A organização
político-administrativa da Suíça compreende três níveis estatais:
a Confederação
(país),
os Cantões
(Estados)
e as Comunas
(municípios).
Todos eles são
competentes para legislar, executar e julgar. A organização judiciária na Suíça
também é bastante marcada pelo confederalismo. Os vinte e seis cantões são
competentes para organizar seus próprios tribunais e regular o direito
processual.
Na Suíça, o povo
tem a palavra final sobre a Constituição Federal. As mudanças na constituição
propostas pelo parlamento suíço, por menores que sejam, exigem o chamado
Referendo Obrigatório.
Devem ser votadas
diretamente pelo povo e precisam ser aprovadas em dupla maioria, ou seja, a
maioria do povo e dos cantões para vigorar. Isto não é difícil, pois pelo menos
quatro vezes por ano, os cidadãos recebem em casa um envelope com documentação
fornecida pela Confederação, pelo Cantão ou pela Comuna, para que opinem e
votem sobre um ou mais assuntos. A maioria das votações realiza-se
secretamente, nas urnas ou pelo correio, salvo em casos nos quais o cantão ou a
comuna opta pela reunião pública.
As reuniões ou
assembleias cantonais são chamadas de “Landsgemeinde”
e as Assembleias Municipais de “Gemeindeversammlung”.
Nelas, é comum a população dar seu voto erguendo um cartão colorido recebido na
entrada do evento.
Através da
iniciativa popular, os cidadãos podem propor modificações constitucionais e
levá-las à votação. Para isto, é necessário reunir 100 mil assinaturas de
eleitores e entregá-las na Chancelaria federal. A partir deste momento,
diferente da maioria dos países onde há plebiscitos, o Governo e o Parlamento são
obrigados a submeter a iniciativa (sem alterações) à decisão popular e, imediatamente,
acatar e implementar a decisão do povo.
Somente nas
últimas duas décadas, mais de 100 iniciativas populares foram votadas e mais de
10 foram aprovadas e incorporadas à Constituição Federal. Os temas propostos
são diversos, como:
funcionamento de
bordeis; eleição proporcional do Parlamento; regulação de plebiscitos sobre
tratados internacionais; restrições ao estado de emergência; proteção dos solos
pantanosos; moratória à construção de usinas nucleares; proteção aos Alpes; a
entrada da Suíça na ONU (2002); minaretes, imigração, criminosos estrangeiros,
etc.
Até mesmo
iniciativas populares rejeitadas acabaram produzindo efeitos, levando os
políticos a buscar soluções e contrapropostas diretas ou indiretas.
Mas são as
cidades que fazem a Suíça ser um país único. Elas funcionam como micro países. As inúmeras cidades definem formas distintas
de organização política – obviamente respeitando algumas normas básicas
definidas pela constituição federal e pelo seu estado (cantão).
Em grande parte
da suíça, o voto não é obrigatório. Nos locais onde é obrigatório, a multa por
não votar é de valor simbólico pois a população considera que votar é um dever
moral. Analisando os muitos dados da base oficial de estatística da Suíça (http://www.bfs.admin.ch), podemos constatar que a média de
participação dos cidadãos nas votações varia grandemente de cidade para cidade.
Ela parte de 24% e
chega até 78% nas cidades mais participativas. Após organizar inúmeras planilhas
e cruzar seus dados, percebe-se um certo padrão. Tirando algumas exceções,
certas características das cidades, como número de habitantes, religião e
língua predominante, parecem influenciar significativamente nos índices de
participação política e até mesmo nos índices de desemprego.
Em ordem
crescente do percentual de participação política, é possível perceber que a
participação aumenta à medida que aumenta o percentual de falantes de língua
alemã e diminui com os de língua francesa e principalmente italiana.
A participação
política também aumenta à medida que cresce o percentual de protestantes e
ateus e diminui o de católicos.
Também, à medida
que aumenta a participação política, diminui o percentual de desempregados e
aumenta a renda per capta média.
Ordenando as
cidades pelo número de habitantes, as primeiras 10% menos populosas tem em média
155 habitantes. Removendo da lista as 20% mais populosas, podemos constatar que
80% das cidades suíças têm em média menos de 1500 habitantes. E removendo da
lista a metade mais populosa, veremos que 50% das cidades suíças tem menos de
700 habitantes. Apenas 2% das cidades suíças tem mais de 20mil habitantes.
Listando as
cidades por ordem de percentual de desempregados, podemos ver que as primeiras
230 cidades com menos desemprego possuem em média 450 habitantes. O
nível de desemprego, assim como a criminalidade e a qualidade de vida, demonstram
uma relação direta com o tamanho da cidade. As pequenas cidades são
rurais mas, não exclusivamente, possuindo uma economia equilibrada entre os
setores primário, secundário e terciário. A área média dos municípios suíços é
17km², mas metade deles tem menos de 5km² e muitos têm menos de 100 hectares ou
1km² (1000 x 1000 metros).
Observando fotos
aéreas do território suíço, podemos perceber que as cidades, principalmente as
do Norte, costumam ter um formato padrão e, em certos momentos, lembram as
células de um tecido vivo.
Cada cidade tem ao
centro o núcleo urbano com pouco mais de 500 metros de diâmetro. Ao redor do
núcleo há uma faixa de produção de alimentos e matas nativas. A faixa produtiva
costuma ser diversificada - um mosaico de belas culturas cultivadas
cooperativamente. Elas se estendem até as densas matas ou cidades vizinhas. Os
núcleos urbanos das cidades possuem diversas estradas que o ligam diretamente
uns aos outros, lembrando as sinapses entre neurônios. Normalmente, a distância
entre os núcleos está entre 2 e 5 quilômetros, e raramente ultrapassa os 10
quilômetros.
Tribalismo Primitivo
Historicamente, por
mais de 2 mil anos o território suíço foi habitado por tribos de celtas
conhecidos como helvécios. Por muito tempo a região, devido à cordilheira dos alpes,
foi ponto estratégico e fronteira entre os impérios romano ao sul e germânico
ao norte.
Por volta de 58
A.C., a região foi dominada pelo Império Romano, mas a partir do ano 200,
tribos germânicas começaram a dominar a região. Isto diminuiu, mas não impediu a
influência romana e o avanço da religião católica. Ainda assim, A Suíça,
principalmente a região de língua germânica, manteve seu estilo e espírito de
vida tribal. Como descreve o escritor e linguista Umberto Eco em seu livro “Idade Média – Bárbaros, Cristão e
Muçulmanos”:
“A
tribo continua durante muito tempo a ser a organização basilar do mundo
germânico e, nesta direção, são os vínculos de parentesco e sangue, além do
reconhecimento de mitos comuns ou da atribuição da origem a um horizonte
compartilhado, que representam a essência da estrutura tribal; por outro lado,
esta mesma organização é o elemento opositivo essencial em relação ao mundo
romano, baseado na pertença à comunidade (ou seja, ao Estado) por direito de
cidadania”.
Na idade média, a
região suíça ainda vivia o estilo e o espírito da vida tribal. Reconhecidas
pela bravura, estas comunidades frequentemente eram contratadas para guerrear
como mercenários em guerras de terceiros. Tal fama despertava temor e respeito,
de modo que gozavam de certa imunidade contra invasores e um nível de liberdade
que era incomum na Europa medieval. Mesmo assim, tiveram de travar muitas
batalhas pela liberdade.
A formação da
Suíça resultou da união destas tribos ou comunidades locais. Durante o século
XI, a família Habsburgo, da Áustria, buscou dominar a região. Foi então que, em
1291, algumas comunidades suíças juntaram forças contra estes invasores,
formando uma liga conhecida como Confederação Helvética ou Confederação Suíça.
A partir de então, comunidades dos arredores foram aderindo.
Atualmente no
livro "Os guerreiros e os
Banqueiros” (The Warriors and the
Bankers), os historiadores Alan Butler e Stephen Dafoe defendem que uma
parte dos cavaleiros Templários, Hospitalários e Teutônicos, após abandonarem a
região de Jerusalém em 1291, foram para onde hoje é a Suíça e lutaram junto às
comunidades locais para formar a Confederação Helvética.
Muitos já eram
originários de comunidades da região Suíça e, curiosamente, a fundação da Suíça
ocorreu poucos meses depois que estes cavaleiros deixaram definitivamente a
região da terra santa. Segundo os historiadores, há relatos históricos sobre
hábeis cavaleiros lutando ao lado dos camponeses e um posterior avanço nas
táticas militares da região. Eles acreditam que a conhecida habilidade financeira dos suíços
também teria conexão com estas ricas ordens de cavaleiros, que tinham
autorização especial da igreja para prestar serviços bancários entre o ocidente
e o oriente, principalmente aos peregrinos rumo à terra santa.
As afirmações
destes historiadores parecem fazer sentido. Em 1307, o rei da França, que devia
muito dinheiro aos Templários, forçou o Papa Clemente V a forjar provas e
dissolver a Ordem do Templo. Muitos templários foram perseguidos e mortos mas, segundo
os historiadores, muitos escaparam do julgamento e da perseguição encontrando refúgio
na região suíça.
Aparentemente, o
Papa se viu forçado a transferir os inúmeros bens dos Templários para a Ordem
dos Hospitalários, o que leva a crer que a Ordem dos Hospitalários absorveu a
Ordem do Templo. Curiosamente, o símbolo da Ordem dos Hospitalários é uma cruz
branca sobre um fundo vermelho - idêntica à bandeira Suíça.
Teorias à parte,
o fato é que a cultura tribal e guerreira do povo suíço foi determinante para
formação do país. Ela impediu que a cultura paternalista e centralizadora
promovida pelo sistema romano e pela igreja católica destruíssem seu espírito de
autossuficiência e autodeterminação. Espírito este que, posteriormente, faria
da Suíça o reduto de grandes intelectuais do renascentismo, iluminismo e palco
de reformas religiosas profundas.
Tribalismo Religioso
A Suíça, apesar
de ser um país pequeno, possui regiões com características e história bem
distintas. Historicamente e até hoje, segundo dados estatísticos
disponibilizados pelo Serviço Estatístico Federal Suíço, as cidades do norte e
nordeste suíço são as mais participativas em votações e as mais prósperas quanto
a qualidade de vida em geral. Elas revelam uma forte característica de “repúdio
à concentração de poder”, que certamente remonta à influência da reforma
religiosa radical promovida por teólogos como Erasmo de Roterdã e Johannes
Ecolampádio e reformadores como e Ulrico Zuínglio (em alemão Ulrich Zwingli)
que, na mesma época de Lutero, se opunham de forma muito intensa às atrocidades
da igreja católica.
Dentre as
críticas à igreja da época podemos destacar a simonia, que era o comércio de
relíquias sagradas. Essas relíquias na maioria das vezes eram falsas e os fiéis
compravam pensando que eram objetos utilizados por Cristo ou por algum santo.
Também havia a venda de indulgências, que era o perdão de pecados através do
pagamento em dinheiro. Outra crítica dizia respeito à dominação imposta pela
Igreja através do monopólio da leitura da Bíblia, que era escrita somente em
Latim. Somente os padres podiam traduzir e interpretar o livro sagrado. Deste
modo, a igreja frequentemente ajustava as interpretações conforme os interesses
do alto escalão do clero. Somem-se a isso à censura às obras clássicas,
o alto índice de analfabetismo e o medo da inquisição. Aqueles que iam contra a
igreja eram presos, torturados e até queimados vivos em plena praça pública. Em
quase toda Europa, o povo estava de mãos atadas. Portanto, as mudanças só eram
possíveis se vindas do próprio clero ou das pressões de aristocratas, monarcas,
imperadores, etc.
Podemos dizer que
no nordeste Suíço a situação era um pouco diferente. Certamente porque nesta
região havia maior cultura e liberdade, e os envolvidos não eram apenas do
clero e da aristocracia. Muitos eram pequenos artesãos e camponeses. É fácil
entender como a cultura do “repúdio à toda concentração de poder” teria
crescido neste ambiente, pois estes eram frequentemente ameaçados por famílias
poderosas, pela igreja, imperadores, etc.
A reforma se iniciou
com Zuínglio, mas se expandiu através de seus colaboradores Conrado Grebel,
Félix Mantz e Hubmaier. Outros líderes reformadores de Zurique e regiões
próximas. Eles eram chamados de Anabatistas ou Reformadores Radicais, buscavam
uma reforma muito mais profunda do catolicismo.
Mais do que
questionar a atrocidades da inquisição, a exploração do povo e o comércio da fé,
estes reformadores suíços questionaram a própria necessidade da existência de
padres e igrejas. Inspirados nas próprias escrituras, buscaram um retorno ao modelo de igreja
primitiva vivenciada pelos apóstolos e fieis logo após a morte de Jesus, resgatando
um cristianismo anterior à 313 D.C., momento em que o Império Romano, na figura
do astuto imperador Constantino, adotou a religião católica e a corrompeu
totalmente. Constantino praticamente subornou os líderes religiosos cristãos de
diversas localidades, lhes concedendo títulos, salários e isenções de impostos.
Deu-lhes novos templos suntuosos e os colocou sobre o seu controle direto, nomeou
bispos e convocou o primeiro concílio (reunião), o qual ele próprio dirigiu.
Neste concílio, Constantino e seus bispos criaram a “Bíblia Sagrada” a partir
de textos selecionados dentre as inúmeras versões de textos e evangelhos que
circulavam na época.
Curiosidade:
A palavra “papa” – que vem do grego pappas, “pai” – foi durante vários séculos
usada para designar todos os bispos do Ocidente. Apenas no ano 1073, por ordem
do papa Gregório VII, ela se tornou de uso exclusivo para o bispo de Roma,
autoridade máxima da Igreja Católica.
Antes de
Constantino, a religião de cristo estava proibida e os cristãos eram
perseguidos e mortos. Isto não impediu que a religião cristã se propagasse.
No primeiro
século, o “cristianismo original” não exigia templos ou imagens de adoração. Os
fiéis se reconheciam apenas como seguidores dos ensinamentos de Jesus. A
comunhão entre os seus seguidores acontecia na casa de qualquer um ou em
qualquer lugar, a relação entre os fiéis e Deus era praticamente direta, sem
intermediários. Os pregadores, assim como os apóstolos, eram tratados apenas
como mensageiros da palavra. Eles não detinham nenhum poder para absolver
pecados ou interceder por eles junto a Deus. Era um tempo em que o batismo era
o único ato simbólico da adesão ao cristianismo.
Gradualmente, no
entanto, foram surgindo diferentes evangelhos e diferentes interpretações que
deram poder a líderes religiosos.
Constantino
escolheu os que melhor lhe serviriam. De Constantino até a idade média, quase mil
anos de gradual avanço na concentração de poder da Igreja, a levaram a administrar
o estado juntamente com reis e imperadores. Em muitos locais da Europa medieval,
a aceitação do cristianismo era obrigatória desde o nascimento. Os pais que não
batizassem os filhos eram perseguidos, expulsos das cidades e até mortos.
Para os
anabatistas suíços, o batismo dos recém-nascidos era o símbolo dessa dominação
imposta. Eles não eram contra o batismo, mas contra a imposição do batismo.
Defendiam que o batismo deveria ser um ato de livre escolha proclamado na
maturidade.
É fácil
entendermos que os Anabatistas surgiram primeiro na Suíça em função da
liberdade que existia nesse país. Nem o feudalismo nem o papado tinham sido
capazes de estabelecer o domínio nessa terra de intrépidos soldados mercenários,
mas para entendermos por que levou mais de mil anos para que este movimento
iniciasse, precisamos retornar algumas décadas e olhar o contexto histórico de
forma mais ampla.
No início do
renascimento, as últimas fronteiras que separavam a Europa do oriente recém
haviam ruído com a tomada de Constantinopla pelo império muçulmano em 1453. À
medida que os refugiados do Império Romano do Oriente adentravam a Europa, traziam
com eles textos originais em grego, alguns inéditos ou proibidos, ou que haviam
sido alterados pela igreja do ocidente. É provável que quase todos os livros
que formaram o Novo Testamento tenham sido escritos originalmente em grego
koiné, o dialeto que predominava na região e época de Jesus.
À medida que eram
traduzidos estes textos vindos dos arredores da terra santa e escritos na
língua de Jesus, revelavam a dimensão da ignorância em que o ocidente estava
mergulhado por conta do feudalismo e da Igreja.
Iniciava-se assim
o “Renascimento” e o fim da idade média. É neste contexto histórico que surge Erasmo
de Roterdã como importante pensador renascentista. Erasmo nasceu na cidade de
Roterdã (Holanda) em 27 de outubro de 1465. Após sair da Holanda, estudou em
Paris e em vários países da Europa. Em 1498 foi para a Inglaterra, onde estudou
e se tornou professor de grego da Universidade de Oxford. Foi nesta época que
escreveu sua obra-prima, O Elogio da
Loucura, uma obra que defende a liberdade de pensamento e denuncia as ações
da Igreja. Embora fosse clérigo e profundamente cristão, Erasmo ficou conhecido
por sua oposição ao domínio exercido pela Igreja sobre a educação, a cultura e
a ciência.
Na Inglaterra, tornou-se
amigo do rei Henrique VIII (aquele que em 1534 rompeu com a igreja católica e
fundou a Igreja Anglicana), e principalmente do seu chanceler, Thomas Morus. Ambos
estudaram em Oxford, eram admiradores de Epicuro e de outros filósofos gregos e,
assim, se tornaram grandes amigos.
Erasmo dedicou a
Morus seu célebre livro “Elogio da loucura”, importante catalizador das
reformas religiosas do renascentismo.
Erasmo, de forma
humorada, satiriza a sociedade da época e leva as pessoas a olhar para o
espelho e perceber como seus valores e atos, ainda que normais e tradicionais,
são, muitas vezes, repletos de imoralidade e irracionalidade. Mais do que
denunciar os abusos supersticiosos e as práticas corruptas da Igreja Católica
Romana, ele promoveu uma reflexão sobre ingratidão, hipocrisia e a intolerância
reinante na sociedade.
Este conjunto de
reflexões foi retomado por seu amigo Morus em sua famosa obra “Utopia” (editada posteriormente na Suíça
por Erasmo), idealizando um Estado guiado pelo direito de igualdade entre todos
os cidadãos e um estilo de vida comunitária (tribal). Morus promoveu uma
crítica não apenas à intolerância religiosa e ao feudalismo (em decadência),
mas também ao regime burguês (em ascensão).
As bases teológicas
das reformas surgem quando Erasmo inicia uma pesquisa profunda da versão grega
do Novo Testamento e de novos textos vindos do oriente. Nesta época a igreja
Católica já estava perdendo suas forças, mas ainda perseguia e matava os
contestadores. Poucos locais, como a Suíça, eram relativamente imunes a seu
poder. Resolvido a publicar suas pesquisas, Erasmo se muda para Basileia –
cidade ao norte da Suíça onde funcionavam importantes editoras da Europa e que,
estrategicamente, fazia fronteira com a Alemanha e França. Lá, conheceu
Ecolampádio e Zuínglio.
Erasmo já era um
Hábil escritor e diplomata, mas ali se consagrou como a figura central do
movimento literário do seu tempo. Suas obras influenciaram líderes reformadores
e ele se correspondeu com muitos dos importantes pensadores e políticos
influentes. Hábil na diplomacia, sua influência e seus conselhos eram buscados
por reis e até pelo Papa.
Auxiliado por
outros estudiosos, como o teólogo suíço Ecolampádio, que dominava o hebraico, ele
publica em 1516 a primeira edição comentada do Novo Testamento Grego. Esta foi
a primeira tentativa por parte de um acadêmico competente e liberal de
averiguar o que os escritores do Novo Testamento tinham efetivamente dito.
Surge então uma
“verdade diferente” sobre os escritos do tempo de Jesus e dos seus seguidores.
Erasmo baseou-se em manuscritos originais, tanto em grego como aramaico e
hebraico, que foram trazidos pelos estudiosos refugiados vindos do oriente. A
edição incluiu uma tradução em Latim e anotações críticas ao comportamento da
Igreja em contradição ao cristianismo original. Sua obra foi bombástica, e rapidamente
sua edição se tornou a fonte da maioria dos estudos científicos da Bíblia que
embasaram as Reformas.
A Bíblia do Rei
Jaime I, da Inglaterra, assim como a bíblia em alemão de Lutero e a tradução
para o Alemão-Suíço feita por Zuínglio, foram traduções da obra de Erasmo. Mas
nenhum movimento reformista seguiu exatamente seus ideais.
Lutero chegou a
pedir seu apoio no movimento da reforma alemã, mas ele recusou. Mesmo na
reforma Suíça, Erasmo preferiu manter-se apenas como um “observador crítico”, acreditando
que com seu distanciamento teria mais credibilidade e influência para
contribuir com as mudanças.
As reformas do
norte e nordeste da Suíça foram iniciadas principalmente por Zuínglio, que se
tornou padre católico na região de Zurique e, inicialmente, defendeu uma
reforma radical aos moldes dos anabatistas. As perseguições aos anabatistas e
as constantes ameaças de uma guerra civil religiosa levaram Zuínglio a
desviar-se para uma proposta menos radical.
As guerras não
puderam ser evitadas, e Zuínglio acabou morrendo em batalha. A paz foi
conquistada com acordos de tolerância, nos quais ambos os lados aceitaram que
cada cidade escolhesse sua religião oficial (característica que persiste até
hoje em muitas cidades suíças que adotam religiões oficiais).
Os anabatistas,
perseguidos na Suíça, se espalharam pelo sul da Alemanha, Vale do Reno,
Caríntia e Países Baixos. Eles acabaram influenciando uma revolta popular
generalizada nos países da língua alemã que culminou na chamada Guerra dos
Camponeses, entre 1524 e 1525. Foi a maior e mais generalizada revolta popular
da Europa antes da Revolução Francesa de 1789, e foi derrotada pela falta de
habilidade militar dos camponeses e a oposição da aristocracia.
Somente os grupos
pacifistas dos anabatistas sobreviveram, como os mennonitas - organizados por
Menno Simons, nos Países Baixos, e hutteritas no Tirol - organizados por Jacob
Hutter.
Para fugir da
intolerância, por muito tempo estes grupos migraram para diversos países da
Ásia e Américas, principalmente no estado da Pensilvânia (EUA). Atualmente,
passados mais de 400 anos, comunidades de huteritas, menonitas e similares como
os amish e quakers persistem e prosperam com seu estilo de vida tribal.
Normalmente,
estes grupos vivem em redes de pequenas comunidades onde todos trabalham e
dividem irmãmente bens e produção. Cultuam o pacifismo, o amor ao próximo e
evitam o consumismo e sentimentos de ganância, inveja, etc. Normalmente são
autossuficientes, não dependendo de tecnologias e da estrutura estatal. Assim,
buscam evitar a interferência externa em seu estilo de vida.
É um estilo de
vida inspirado no chamado cristianismo original ou primitivo descrito no Novo
Testamento, especialmente em Atos dos Apóstolos:
"De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a
sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas, e perseveravam na
doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em
toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos
apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E
vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia
de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão
em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e
caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja
aqueles que se haviam de salvar."
- Atos 2:41-47
"Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos
os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora
vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um,
segundo a necessidade que cada um tinha."
- Atos 4:34-35
“E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios,
e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado; Para que
andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa
alguma.”
1 Tessalonicenses 4:11,12
“De novo olhei e vi toda a opressão que ocorre debaixo do sol: Vi
as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos
seus opressores, e não há quem os console. Por isso considerei os mortos mais
felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver! No entanto, melhor do
que ambos é aquele que ainda não nasceu, que não viu o mal que se faz debaixo
do sol. Descobri que todo trabalho e toda realização surgem da competição que
existe entre as pessoas. Mas isso também é absurdo, é correr atrás do vento. O
tolo cruza os braços e destrói a própria vida. Melhor é ter um punhado com
tranquilidade do que dois punhados à custa de muito esforço e de correr atrás
do vento. Descobri ainda outra situação absurda debaixo do sol: Havia um homem
totalmente solitário; não tinha filho nem irmão. Trabalhava sem parar! Contudo,
os seus olhos não se satisfaziam com a sua riqueza. Ele sequer perguntava: "Para
quem estou trabalhando tanto, e por que razão deixo de me divertir?" Isso
também é absurdo; é um trabalho por demais ingrato! É melhor ter companhia do
que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se
um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não
tem quem o ajude a levantar-se! E, se dois dormirem juntos, vão manter-se
aquecidos. Como, porém, manter-se aquecido sozinho? Um homem sozinho pode ser
vencido, mas dois conseguem defender-se. Um cordão de três dobras não se rompe
com facilidade”.
- Eclesiastes 4:1-12
“Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente
considerem os outros superiores a vocês mesmos. Cada um cuide, não somente dos
seus interesses, mas também dos interesses dos outros“.
- Filipenses 2:3-4
“E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes,
enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não
cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural;
Porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era.
Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso
persevera, não sendo ouvinte esquecediço, mas fazedor da obra, este tal será
bem-aventurado no seu feito”.
- Tiago 1:22-25
Apesar de os
anabatistas terem sido expulsos do norte e nordeste suíço, os rastros de seu
surgimento e desenvolvimento deixou naquelas comunidades marcas que podem ser
sentidas até hoje e que se intensificaram quando os ideais de democracia da
revolução francesa se somaram e deram o toque final ao espirito comunal das
microcidades que prosperam naqueles belos vales e campos.
Assim, podemos
dizer que na Suíça, o estilo de vida tribal encontrou guarida dentro dos
próprios textos bíblicos. E se este
primeiro período das reformas reafirmou a vida tribal sobre ótica da religião, o
segundo período, caracterizado pelo iluminismo (principalmente de Rousseau),
vai reafirmar a vida tribal sob a ótica da razão e da política, enfocando os
primeiros argumentos que defendem o tribalismo como parte da natureza humana.
Rousseau defende
que a sociedade precisa ser um ambiente de liberdade, igualdade e fraternidade,
e isto requer um contrato, um pacto entre todo o povo, um comprometimento de participação
e de repúdio a toda forma de concentração de poder que possa ameaçar esta
igualdade. Para que isto seja possível, Rousseau idealiza não apenas a política
mas uma cultura, educação e religião favoráveis a este pacto.
Tribalismo Político ou Pré-científico[1]
Podemos dizer que,
na Suíça, a passagem do tribalismo religioso ao tribalismo político teve início
com a assimilação dos ideais da revolução francesa (1789), idealizados principalmente
pelo Suíço Jean-Jacques Rousseau e implantados com o auxílio de Napoleão, seu
grande admirador.
A França invadiu
a Suíça em 1798, momento em que vários setores populares da Suíça, já
influenciados pelas ideias de Rousseau e da revolução francesa, buscavam
promover a revolução no país.
Inicialmente, os
franceses implantaram na Suíça um estado republicano centralizado, buscando dar
fim ao poder feudal, religioso e outras antigas estruturas de concentração de
poder. Porém, as diferenças culturais entre os cantões suíços geraram muitos conflitos.
Eles levaram Napoleão a retroceder e implantar em 1803 uma estrutura
confederada (menos centralizada). Nesta confederação, o poder central se
limitou ao essencial, permitindo aos cantões funcionarem quase como países
autônomos, com grande liberdade para legislar e promover políticas adequadas a
sua realidade local. Obviamente, as transformações não foram tão amplas ou
fieis aos ideais de Rousseau.
Em cada
comunidade, as estruturas do tribalismo político acabaram refletindo
características do anterior tribalismo religioso, mas os ideais revolucionários
ecoaram mesmo após a retomada da independência em 1815. Gradualmente, muitas
comunidades se libertaram das velhas estruturas e adotaram maior nível de
liberdade e participação popular. Destes ideais, acredito que o repúdio a toda forma de concentração de poder,
seja político, militar ou religioso, foi o principal legado desta revolução. Ainda
que não tenha sido declaradamente expresso, este repúdio garantiu as condições para
que outros avanços ocorressem e tornassem a política suíça uma referência
mundial.
A melhor forma de
entendermos a essência deste tribalismo político é conhecendo Rousseau e suas
ideias. Ele, com sua genialidade, elaborou um modelo de sociedade ideal com base
no que havia de mais cientifico e lógico em sua época. Sua curiosidade ampla e
sua crença em universo lógico (como referido quebra-cabeça universal) o levou a
propor uma sociedade que, para ele, fosse o reflexo da natureza humana. Um
modelo social que, psicologicamente, seria mais favorável aos instintos tribais
humanos. Sua genialidade fica evidente pelo impacto que suas obras tiveram sobre
a sociedade suíça, francesa e por toda Europa e mundo. No Brasil elas
inspiraram as chamadas Rebeliões Regenciais. Dentre elas a Balaiada (Maranhão),
Cabanagem (Pará), Sabinada (Bahia) e a Revolução Farroupilha (Rio Grande do
Sul) a maior e mais importante revolta do período regencial.
A obra Rousseau é
embasada na crença de que o homem nasce programado para viver em um estado de
integração com a natureza tendo, portanto, um conjunto de valores simples que
nascem com ele.
Diferente da
crença religiosa e de muitos pensadores da época, para Rousseau o homem era
essencialmente bom. Nascia bom mas, a sociedade o corrompia. Defendia que não
havia nada de errado ou mal no estado selvagem ou estilo de vida primitivo do
homem, sendo ele plenamente capaz de viver em harmonia com a natureza. Para
Rousseau, o “homem natural” possuía a habilidade da autossuficiência e,
portanto, era profundamente livre. Para ele, o homem foi perdendo sua liberdade
natural à medida que a trocava por supostos benefícios da vida em sociedade. - Aqui
é importante percebermos que Rousseau não é contrário a formação de sociedades,
mas ele identifica que em algum ponto da evolução, a função benéfica da
sociedade foi corrompida por valores culturais que promoveram desigualdades
entre os homens. Isto levou a humanidade à formação de sociedades injustas e
corruptas onde, no final das contas, todos perdem.
“O homem nasceu livre, mas em toda a parte está a ferros. Este
julga-se senhor dos outros, e é mais escravo do que eles”[2].
“Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja com toda
a força comum, a pessoa e os bens de cada associado, e pela qual cada um,
unindo-se a todos, só obedeça, contudo, a si mesmo e permaneça tão livre quanto
antes. Este é o problema fundamental cuja solução é fornecida pelo Contrato
Social”
Ele afirmou que, a
grande insanidade humana foi o desenvolvimento de uma cultura que se afastou
demasiado do estado de natureza. Uma cultura que acabou por escravizar os
homens sob uma uniformidade de costumes, enquanto os desvirtuava, os
enfraquecia e os corrompia.
Para Rousseau, a
sociedade ideal deve surgir de um pacto social de igualdade e fraternidade, onde
todos aceitam diminuir sua liberdade individual em prol da criação de um ser
social focado no bem geral.
Este ser social,
que ele chama de “soberano”, é que deverá dar origem a cidade ou Estado. Ele
deve surgir de um pacto regulado por leis definidas diretamente por todos
através de democracia direta (sem representantes). Como veremos adiante, Rousseau
recomenda, ainda, uma base educacional e uma religião civil comum a todos como
forma de garantir o foco nos ideais e no bem geral e para proteger a sociedade
das religiões e valores culturais que promovam desigualdades.
O pensamento de
Rousseau, há 300 anos atrás, era mais do que revolucionário. Não haviam estudos
arqueológicos, antropológicos ou genéticos que pudessem servir de base para
suas ideias. Ainda assim, a visão de Rousseau sobre evolução e a natureza
humana foram muito próximas da realidade. Sua genialidade fica clara quando
entendemos a amplitude de sua visão, que se inicia com sua preocupação em
analisar as características do homem natural, do comportamento social, da cultura,
da economia, da educação, da religião e outros, tudo em prol de uma solução
integrada que pudesse promover uma sociedade mais evoluída, mais harmônica e
mais feliz.
É incrível que
ainda hoje a releitura de Rousseau seja tão atual e necessária. Mesmo diante de
tantas descobertas cientificas, tanta destruição do equilíbrio natural e das
crises sociais e econômicas, a grande maioria da humanidade continua sofrendo
dos mesmos males.
Rousseau nasceu
em 1712, em Genebra, e faleceu em 1778, na França.
Nasceu numa época
em que a revolução industrial dava seus primeiros passos e grandes invenções
começavam a surgir pela Europa - motor a vapor, ligas de aço, tear mecânico,
etc.
Ao mesmo tempo, a
revolução da imprensa se consolidava, e livros traduzidos se tornavam comuns. Revistas,
almanaques e jornais começavam a circular. É justamente em meio à possibilidade
de tanta leitura e novas informações que o iluminismo surge como movimento
guiado por uma elite letrada que buscava uma revolução através do fim do
analfabetismo. Iluministas como Rousseau, acreditavam que através da educação,
da ciência e da racionalidade conseguiriam promover mudanças sócias profundas -
iluminar as mentes e tirar o povo das trevas da ignorância.
Surgia uma nova
concepção do mundo, essencialmente racionalista e baseada na crença da
existência de leis naturais que regem a dinâmica do Universo. Claro que isto
tudo é reflexo do Renascimento e da Revolução Cientifica que o acompanhou. É
neste ambiente que Rousseau cresceu e se tornou um curioso autodidata devorador
de livros.
Curiosidade:
Rousseau é considerado o mais influente dos patriarcas da Revolução Francesa
(1789). Seu corpo hoje repousa no Panteão de Paris, em cuja fachada lê-se “Aux
grands hommes, la patrie reconnaissante” (“Aos grandes homens, a pátria é
grata”).
A mãe de Rousseau
era filha de um pastor protestante de Genebra e morreu poucos dias após seu
parto. Ele foi criado por sua tia e seu pai, um relojoeiro calvinista.
Aprendeu a ler e
escrever cedo e lia obras clássicas com seu pai. Aos sete anos já havia lido
diversas obras do acervo deixado por sua mãe e seu avô materno, obras como “Le Suer” (História da Igreja e dos
Impérios), “Bossuet” (Discursos sobre
a História Universal), “Plutarco”
(Homens Ilustres), “Ovídio” (Metamorfoses),
“Fontenelle” (Os Mundos), Etc.
Teve pouca instrução
formal, sendo essencialmente um autodidata interessado em vários assuntos. Aos
16 anos, decidiu deixar Genebra e conhecer o mundo. Chegando em Annecy (França),
já sem recursos e faminto, foi acolhido por Madame de Warens, que se dedicava a
receber e encaminhar à instrução os protestantes desejosos de conversão. Ela
logo o encaminha para estudar em Turim (Itália), onde ele se converter ao
cristianismo. Após os estudos e algumas boas aventuras, retorna à França.
Sua vida pessoal
e amorosa sempre foi um tanto conturbada. Profissionalmente, durante muito
tempo Rousseau buscou viver da sua paixão pela arte da música, mas foi na arte
da escrita que se destacou. Durante sua vida, com idas e vindas a diversos
lugares da Suíça, França, Inglaterra e Itália, e tendo conquistado influentes
amigos e protetores, obteve acesso a muitas obras e novos saberes.
Em Paris,
instalou-se perto da universidade de Sorbonne e passou a frequentar os cafés,
que eram ponto de encontro dos intelectuais da época. Assim conviveu com
Marivaux (1688-1763), Condillac (1715-1780), Fontenelle (1657-1757) e Denis
Diderot (1713-1784). Deste último, tornou-se grande amigo.
Diderot ficou
conhecido por publicar a Enciclopédia[3] e por ser preso após publicar a obra “Carta sobre os Cegos” em 1749, na qual defendia
abertamente o ateísmo.
Ao longo da vida,
Rousseau estudou vários temas, como música, filosofia, botânica e história, e
produziu renomadas obras sobre política, filosofia, pedagogia e história.
Também produziu musicais, romances, obras sobre botânica e teoria musical. Em
1750 (aos 37 anos de idade), tornou-se famoso ao ganhar o prêmio literário da
academia de Dijon, cujo tema era "O
restabelecimento das ciências e das artes terá favorecido o aprimoramento dos
costumes?". Após, Rousseau passou a ser respeitado pela elite
parisiense e a ser convidado a reuniões e jantares para expor suas ideias. Mas foi
em 1954 (aos 41 anos), diante de outra competição literária da Academia de
Dijon com o tema “Qual é a origem da
desigualdade entre os homens, e se é autorizada pela lei natural?” que ele
tornou públicas as percepções políticas e sociais mais importantes de sua obra.
Desta vez ele não ganhou o prêmio, mas como escreveu em sua outra obra “Confissões”:
"...não é
para obras dessa categoria que são instituídos os prêmios das Academias".
Rousseau inicia
esta obra com uma dedicatória à sua terra natal, tecendo inúmeros elogios à
proximidade que a liberdade e a democracia de Genebra (Suíça) tem com seus
ideais. No mesmo ano (1654), Rousseau retorna à Suíça, abjura a fé católica e
retorna ao protestantismo.
Em sua obra sobre
a desigualdade entre os homens, Rousseau defende a tese que os homens foram
livres e felizes enquanto viveram no estado natural, e foi quando começaram a
agrupar-se e constituir sociedades organizadas que começaram a surgir as
desigualdades, o desejo de posses, de riquezas e o desejo de poder de uns sobre
os outros. Para ele, as desigualdades são fruto de uma hierarquia social mal
constituída que acaba corrompendo e sufocando o potencial da verdadeira
natureza humana.
Muitos tentam
invalidar as análises de Rousseau por ele ter imaginado que o homem em seu
estado mais primitivo não vivia em sociedades ou bandos como a arqueologia
atual revela. Ele apresentou o homem como um caçador coletor solitário que, com
sua autossuficiência individual, vivia de forma integrada à natureza. Porém,
como podemos ver no conjunto de sua obra, Rousseau costuma estar interessado em
ser didático e contrapor visões. Já no início da obra, ele afirma que não há
certezas sobre como teria vivido este homem primitivo (e de fato não havia em
sua época) e que, portanto, basearia sua obra em hipóteses.
Penso que
Rousseau optou por analisar o homem primitivo como sendo um ser solitário para
poder demonstrar mais facilmente que o homem nunca dependeu de sociedades, que
bastavam os frutos da natureza, os instintos naturais e um contato esporádico
entre os sexos para que a espécie se mantivesse e todos vivessem de modo
saudável. Assim, buscou demostrar que se submeter a uma vida em sociedade só é um
ato de inteligência quando traz um ganho para qualidade de vida de todos.
Sobre o homem
primitivo ele escreveu:
“Efetivamente, é impossível imaginar porque, nesse estado
primitivo um homem teria mais necessidade de outro homem do que um macaco ou um
lobo do seu semelhante; (...) Sei que nos repetem sem cessar que nada foi tão
miserável como o homem nesse estado; (...) eu só desejaria que me explicassem
qual pode ser o gênero de miséria de um ser livre cujo coração está em paz e o
corpo com saúde. Pergunto qual, a vida civil ou a natural, está mais sujeita a
se tornar insuportável para os que a gozam. Em torno de nós, quase que só vemos
pessoas que se lastimam de sua existência, e muitas mesmo que se privam dela
tanto quanto o podem; e a reunião das leis divina e humana mal basta para deter
essa desordem. Pergunto se jamais se ouviu dizer que um selvagem em liberdade tenha
somente pensado em se lastimar da vida e em se suicidar. (...) Só no instinto,
tinha ele tudo o de que necessitava para viver em estado de natureza”.
Foi assim que a natureza, que tudo faz do melhor modo,
inicialmente o instituiu. Ela lhe dá de imediato apenas os desejos necessários
à sua conservação e as faculdades suficientes para satisfazêlos (...). Só
nesse estado primitivo o equilíbrio entre o poder e o desejo é reencontrado e o
homem não é infeliz (...) quanto mais o homem tiver permanecido próximo à sua
condição natural, mais a diferença entre as suas faculdades e os seus desejos
será pequena e, consequentemente, menos distante estará de ser feliz. (...) O
mundo real tem seus limites, o mundo imaginário é infinito. Já que não podemos
ampliar o primeiro, reduzamos o segundo, pois é unicamente da diferença entre
eles que nascem todos os sofrimentos que nos tornam realmente infelizes”[4].
Outra aproximação
que parece possível diz respeito à vida coletiva. A sociedade civil, conforme
Rousseau afirma em sua obra “Do Contrato
Social”, foi inaugurada com o surgimento da propriedade privada. Antes
desse estágio, houve um período de evolução que chamou de “a idade de ouro, a
meio caminho entre a brutalidade das etapas anteriores e a corrupção das sociedades
civilizadas”, em que os homens viviam coletivamente[5].
No filme Avatar,
podemos considerar os nativos da ficção de Cameron vivendo nessa “Idade de
Ouro”. Os Na'vi dormem, caçam e fazem juntos as refeições na árvorelar. A vida
coletiva não lhes desvirtuou os costumes nem lhes gerou discrepância entre o
comportamento e as disposições do coração, como o filósofo afirma existir no
homem corrompido pela sociedade:
“(...) reina
entre nossos costumes uma uniformidade desprezível e enganosa, e parece que
todos os espíritos se fundiram num mesmo molde: incessantemente a polidez
impõe, o decoro ordena; incessantemente seguemse os usos e nunca o próprio
gênio. Não se ousa mais parecer tal como se é, sob tal coerção perpétua, os
homens que formam o rebanho chamado sociedade, nas mesmas circunstâncias, farão
todos as mesmas coisas desde que motivos mais poderosos não os desviem.” [6]
Esse
distanciamento entre o ser e parecer reflete a futilidade dos valores
enraizados na humanidade e é expresso no filme através do contraste entre a
relação dos homens e dos Na'vi com a natureza. No ano 2154, quando se passa a
trama, os recursos naturais da Terra estariam completamente esgotados conforme
a fala do personagem Jake Sully: “Veja o mundo de onde viemos: lá não há verde.
Eles mataram a própria mãe Natureza”. Em contrapartida, a relação dos nativos
com a natureza em Pandora, além de harmoniosa, é voltada a perpetuação do
planeta.
Sobre a obra das
desigualdades, o sociólogo, advogado e historiador Nelson Jahr Garcia escreveu:
“Rousseau, com os seus companheiros enciclopedistas e da
maçonaria, nos ensinou a respeitar o ser humano, amar a natureza e a sentir
paixão pela liberdade. Foi devido a essa influência, pelo menos em parte, que
lutamos contra o jugo português, proclamamos a República, enfrentamos a
ditadura do Estado Novo e o regime militar. Aprendemos também a defender as
florestas, os animais, a vida enfim. Em "Sobre a origem da
desigualdade", Rousseau mostra o caminho histórico percorrido pelo ser
humano, passando do estado de natureza para o estado civilizado. Discute as
contradições e antagonismos que permearam esse processo e defende a volta ao
estado natural, sob novas formas. Suas concepções sobre o Direito Natural, no
Prefácio, são brilhantes”.
A conclusão final nos leva a pensar e, espero, a agir um dia:
"Essa distinção determina suficientemente o que se deve pensar, nesse
sentido, da espécie de desigualdade que reina entre todos os povos policiados,
pois é manifestamente contra a lei da natureza, de qualquer maneira que a
definamos, que uma criança mande num velho, que um imbecil conduza um homem
sábio, ou que um punhado de pessoas nade no supérfluo, enquanto à multidão
esfomeada falta o necessário". - Liberdade também se aprende, com Rousseau
o caminho é mais breve”.
Quanto à Suíça, Rousseau
sabia que sua terra natal, mesmo avançada para época, estava longe da dimensão de
seus ideais, visto que afrontaria tanto católicos como protestantes e também as
elites poderosas da Suíça.
Imaginando que
sua obra incitaria revoltas até mesmo ali, buscou escolher as palavras, mas manteve-se
fiel às suas crenças e transmitiu, cuidadosamente, a essência de seu
pensamento. O resultado, no entanto, foi pior que o esperado, e Rousseau amargou
inúmeras críticas de seus conterrâneos. Novamente, na sua mais famosa obra “Do Contrato Social”, ele reafirma seu
amor e admiração pela democracia Suíça:
“Nascido
cidadão de um Estado Livre e membro do soberano [pacto social], por frágil que
seja a influência de minha voz nos negócios públicos, basta-me o direito de
votar para me impor o dever de me instruir no tocante a isso: feliz, todas as
vezes que medito sobre os governos, de achar sempre, em minhas pesquisas, novas
razões para amar o de meu país”.
Em “Do Contrato Social”, vemos que o estado
ideal defendido por Rousseau é baseado não apenas em pesquisas sobre a
democracia grega e filósofos como Platão, Epicuro, Sêneca etc., mas em
características do governo e da cultura Suíça que ele próprio percebeu como “a
receita para o sucesso”. Há um trecho de sua obra que sintetiza estas
características:
“Em
primeiro lugar, um Estado muito pequeno em que o povo seja fácil de reunir e em
que cada cidadão possa facilmente conhecer todos os outros; em segundo lugar,
uma grande simplicidade de costumes que previna a multiplicidade de assuntos e
as discussões espinhosas; em seguida, muita igualdade nas categorias e nas
fortunas, sem o que a igualdade não poderia subsistir muito tempo nos direitos
e autoridade; finalmente, pouco ou nenhum luxo, pois o luxo é o efeito das
riquezas ou torna-as necessárias; corrompe ao mesmo tempo o rico e o pobre, um
pela posse, outro pela cobiça; vende a pátria à inércia, à vaidade; tira ao
Estado todos os seus cidadãos para os sujeitar uns aos outros e todos à
opinião”.
Neste trecho, ele
reafirma seu repudio à ideia de representação política e propõe uma
confederação de pequenos Estados como condição para uma boa democracia. Esta
obra produziu um impacto enorme, servindo de inspiração para a revolução francesa
(1789) e para Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
Rousseau concluiu
que uma sociedade requer dimensões adequadas, proximidade física, convívio
rotineiro, laços de identidade e objetivos em comum. Tudo isto somado a um
contrato social assumido livremente por todos visando à formação deste “ser
maior” que ele chamou de “Soberano”. Um ser tribal que é modelado pelas leis
criadas e assumidas por todos, onde todos estão imbuídos da busca do bem geral,
e não apenas da do bem da maioria (pois o foco na maioria gera
descontentamentos e cisões). Estes são ingredientes fundamentais da receita
para uma sociedade saudável e harmônica com a própria natureza humana.
Dos temas mais
importantes de suas obras podemos destacar:
Da autoridade...
“Uma
vez que homem nenhum possui uma autoridade natural sobre seu semelhante, e pois
que a força não produz nenhum direito, restam pois as convenções como base de
toda autoridade legítima entre os homens”.
Assim, ele afirma
que todas regras sociais ao qual estamos habituados não passam de convenções.
Do pacto
social...
“Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda a
força comum a pessoa e os bens de cada associado, e pela qual, cada um,
unindo-se a todos, não obedeça portanto senão a si mesmo, e permaneça tão livre
como anteriormente.” Tal é o problema fundamental cuja solução é dada pelo
contrato social.
(...) Enfim, cada qual, dando-se a todos, não se dá a ninguém, e,
como não existe um associado sobre quem não se adquira o mesmo direito que lhe
foi cedido, ganha-se o equivalente de tudo o que se perde e maior força para
conservar o que se tem.
(...) Cada um de nós põe em
comum sua pessoa e toda a sua autoridade, sob o supremo comando da vontade
geral, e recebemos em conjunto cada membro como parte indivisível do todo”.
O professor de
filosofia política Milton Meira do Nascimento, em sua obra “Rousseau: da servidão à liberdade”, resume de forma brilhante este
conceito.
“(...) o povo soberano, sendo agente do
processo de elaboração das leis (participação ativa) e ao mesmo tempo aquele
que obedece a essas mesmas leis (participação passiva), têm todas as condições
para se constituir, agindo por si mesmo. Desse modo haveria uma conjugação
perfeita entre a obediência e a liberdade, pois, obedecer à lei que se
prescreve a si mesmo é o próprio ato de mostrar que a pessoa é livre – ato de
liberdade. Um povo, portanto, só será livre quando tiver todas as condições
necessárias de elaborar suas leis, num clima de igualdade”.
Quanto à
liberdade significar “leis que impomos a nós mesmos”, é oportuno retomarmos a
reflexão que fiz em capítulo anterior:
“Assim como Epicuro, também Kant, identifica que a liberdade é
sinônimo de autonomia. Liberdade é quando conseguimos superar nossos gostos,
sentimentos e desejos a fim de escolher racionalmente nossas próprias regras de
conduta. É quando, após grande reflexão, impomos leis a nós mesmos! Neste
momento estamos exercendo a verdadeira autonomia, estamos agindo livres de
nossos impulsos irracionais ou de influências culturais.
Obviamente que Epicuro vai além, e defende que esta autonomia
sobre os desejos deve ser direcionada a autossuficiência e a vida simples como
forma de evitar o desgaste dos sentidos e preservar a habilidade de sentir os
prazeres que a natureza nos proporciona de forma tão fácil e segura. Em outro
texto, Epicuro afirma:
‘Graças sejam rendidas à bem-aventurada Natureza que fez com que
as coisas necessárias sejam fáceis de alcançar e que as coisas difíceis de
alcançar não sejam necessárias’
Em resumo, o que podemos concluir destes dois grandes pensadores é
que: Quem deixa sua vida ser guiada por gostos e desejos, sem perceber, é um
escravo. E será escravizado por todos que souberem lhe provocar desejos.
Somente pode considerar-se livre aquele que, a luz da ciência e da razão,
escolhe seus gostos e desejos”.
Neste sentido,
diria que não apenas há leis que impomos a nós mesmos, mas também que impomos
ao Estado. Estas também devem estar alinhadas às características da natureza
humana e serem escolhidas à luz da ciência e da razão.
Esta sábia visão
filosófica deve nortear a vida do ser humano e se tornear cultura. Como disse
Rousseau: “Todas as nossas paixões são
boas quando nos tornam senhores; todas são más quando nos tornam escravos”.
A vontade da
maioria ou a vontade geral...
Para Rousseau, o Estado
deve pautar-se pela vontade geral, e não pela vontade da maioria. O
aprendizado, o debate pela busca e do consenso deve ser a meta e não a simples
democracia, onde se objetiva a vontade da maioria. Ele afirma:
“O bem comum não pode
ser estabelecido pela simples soma estatística das opiniões individuais – por
exemplo, pelo voto, posto que somando tantos egoísmos não se obtém
absolutamente altruísmo e consciência civil”.
Neste ponto, cabe
um adendo. Ainda que Rousseau defenda ferozmente a participação direta de todos
na criação das leis, ele admite que as leis podem ser um entrave diante de certas
situações de emergência. Nestes casos, a centralização temporária do poder pode
ser necessária. Ainda assim, este poder deve ser concedido por tempo limitado e
cessar logo após resolvida a emergência.
A dimensão do
estado...
“Assim como a natureza impôs limites à estatura de um homem bem
formado, fora de cujos padrões só há gigantes ou anões, o mesmo acontece com a
melhor dimensão de um Estado, que tem limites apropriados para que não seja
grande demais, dificultando a sua administração, ou pequeno demais para se
sustentar.
É difícil imaginar algo mais tolo do que os princípios adotados
por nações empenhadas em conquistas que acreditavam aumentar o seu poder ao
ampliar o território além de qualquer medida. Começa a ser evidente que toda
entidade política tem um limite máximo de força que não pode ultrapassar, e que
muitas vezes deixa de alcançar por crescer demais. No entanto, talvez ainda não
seja perfeitamente evidente que quanto mais se amplia o vínculo social, menos
firme se torna, e que de modo geral um Estado pequeno é sempre
proporcionalmente mais forte do que um Estado de grandes dimensões”.
Da
autossuficiência...
“Enquanto os homens se contentaram com as suas cabanas rústicas,
enquanto se limitaram a coser suas roupas de peles ..., a aperfeiçoar ou
embelezar os seus arcos e flechas, a talhar com pedras cortantes algumas canoas
de pesca ou grosseiros instrumentos de música; em uma palavra, enquanto se
aplicaram exclusivamente a obras que um só podia fazer, e a artes que não
necessitavam o concurso de muitas mãos, viveram livres, sãos, bons e felizes
,tanto quanto podiam ser pela sua natureza, e continuaram a gozar entre si das
doçuras de uma convivência independente. Mas, desde o instante que um homem
teve necessidade do socorro de outro; desde que perceberam que era útil a um só
ter provisões para dois, a igualdade desapareceu, a propriedade se introduziu,
o trabalho tornou-se necessário e as vastas florestas se transformaram em
campos risonhos que foi preciso regar com o suor dos homens, e nos quais, em
breve, se viram germinar a escravidão e a miséria, a crescer com as colheitas.”
Discurso sobre a origem da desigualdade
A agricultura é o único meio de manter a independência externa de
um Estado. Com toda a riqueza do mundo, se faltar o alimento o país dependerá
de outros; os vizinhos poderão valorizar como quiserem o seu dinheiro, pois
quando falta o alimento não se pode esperar para recebê-lo. Mas o pão que
necessitamos tem para nós um valor indisputável; e em qualquer tipo de
comércio, é sempre o menos pressionado que dita as condições à outra parte.
Reconheço que em um sistema baseado no poder financeiro, será necessário operar
com base em outros princípios; tudo depende do objetivo que se tem em vista. O
comércio produz riqueza, mas é a agricultura que garante a independência de um
país.” Rousseau - PROJETO DE CONSTITUIÇÃO PARA A CÓRSEGA
Do trabalho com a
terra...
“Os
camponeses estão muito mais vinculados à sua terra do que os cidadãos urbanos
às cidades. Para os que não estão familiarizados com outros estilos de
existência, a igualdade e simplicidade da vida rural exerce uma atração que
deixa as pessoas sem o desejo de mudá-la. Daí a satisfação com a sua forma de
vida que torna os homens pacíficos; e o amor ao país que os vincula à sua
constituição. Lavrar o solo torna os homens pacientes e robustos, qualidades
necessárias para fazer bons soldados. Os recrutas recolhidos nas cidades são
frouxos e indisciplinados; não podem suportar as fadigas da guerra; desfalecem
sob a tensão das longas marchas; são consumidos pela doença; disputam entre si
e fogem do inimigo. As milícias treinadas são os melhores soldados, e mais
confiáveis. A verdadeira formação de um soldado é trabalhar no campo.” Rousseau
- PROJETO DE CONSTITUIÇÃO PARA A CÓRSEGA
Da organização
militar...
A maior de todas as despesas da República é a manutenção do
exército, e os serviços que este presta certamente não são proporcionais ao seu
custo. [...] As tropas regulares — praga e fator de despovoamento da Europa —
só servem para dois fins: atacar e conquistar os vizinhos ou escravizar os
próprios cidadãos. Sei que o Estado não deve permanecer sem quem o defenda, mas
seus verdadeiros defensores são os cidadãos. Cada cidadão deve ser um soldado
por dever, não por profissão. Assim era o sistema militar dos romanos, este é
hoje o dos suíços e deveria ser o de todos os Estados livres, especialmente da
Polônia. Sem condições de formar um exército capaz para a sua defesa, quando
necessário precisa formá-lo com os seus habitantes. Só uma boa milícia,
autêntica e bem treinada, pode atender a essa necessidade. Custará pouco à
República, estará sempre pronta a servi-la e a servirá bem, pois afinal de
contas sempre defendemos melhor o que nos pertence do que os bens alheios.” [...]
Nada mais fácil do que fazer com que a habilitação no uso das
armas seja um ponto de honra, para que todos se adestrem zelosamente no serviço
do seu país diante dos olhos da família e do povo; zelo que não se pode
promover da mesma maneira em um agrupamento de pessoas recrutadas ao acaso, e
que só tenha consciência das dificuldades do treinamento. Lembro-me da época em
que os cidadãos de Genebra executavam manobras militares muito melhor do que as
tropas regulares;” [...]
“Na Suíça, todos os indivíduos que se casam precisam receber um
uniforme, que se torna sua vestimenta festiva; um rifle, e todo o equipamento
dos soldados de infantaria; são alistados na companhia existente no seu
distrito. No verão, essas milícias são treinadas, nos domingos e feriados, primeiro
em esquadrões, depois em companhias, e regimentos, até que finalmente, quando
chega à sua vez, se reúnem no campo, onde recebem treinamento em todas as
manobras da infantaria. Como não se afastam do lugar onde moram, e portanto
quase não interrompem o seu trabalho, não recebem qualquer pagamento; mas
quando se deslocam para as manobras recebem alimentação e além disso são pagos
pelo Estado; e ninguém tem permissão para enviar outra pessoa no seu lugar,
para que todos recebam treinamento e façam a sua parte na defesa do país.” Rousseau - Considerações Sobre o Governo da
Polônia e a sua Projetada Reforma (1772)
Da educação dos
jovens...
Não pode haver patriotismo sem liberdade, liberdade sem virtude,
virtude sem cidadania. Se criarmos cidadãos, teremos tudo o que é necessário;
sem eles, só haverá escravos degradados, a começar pelos próprios governantes.
Formar cidadãos não é trabalho de um só dia; para termos homens precisamos
educá-los quando ainda são crianças. [...] É tarde demais para mudar nossas inclinações
naturais quando elas já assumiram o seu rumo, e o egoísmo é confirmado pelo
hábito. É tarde demais para orientar-nos a sair de nós mesmos, quando o Ego
humano, concentrado no nosso coração, passou a ter essa atividade desprezível
que absorve todas as virtudes e constitui a vida e o ser das mentes mesquinhas.
Como pode o patriotismo germinar no meio de tantas outras paixões que o
sufocam? E que pode restar para os concidadãos de um coração já dividido entre
a avareza, que domina, e a vaidade? Desde o seu primeiro momento os homens
deviam começar a aprender a merecer a vida; e, como no momento em que nascemos
partilhamos dos direitos da cidadania, aquele instante deveria ser o início da
prática dos nossos deveres. Assim como há leis para a época da maturidade,
deveria haver leis para a infância, o ensino da obediência aos outros; e como a
razão de cada homem nunca é considerada o árbitro exclusivo dos seus deveres, o
governo deveria agir com maior discriminação e não abandonar à inteligência e
aos preconceitos dos progenitores a educação dos seus filhos, já que a educação
é ainda mais importante para o Estado do que para os pais; porque, segundo o
curso natural, a morte destes muitas vezes retira dos filhos o fruto final da
educação, mas o seu país cedo ou tarde sentirá esses efeitos. As famílias se
dissolvem, o Estado permanece.
Em todos os colégios será preciso criar um ginásio para os
exercícios físicos dos alunos. Na minha opinião esse item tão desprezado é a
parte mais importante da educação, não só por formar organismos sadios e
robustos, porém mais ainda pelo efeito moral, que se costuma negligenciar ou
preencher com preceitos pedantes e vãos, que correspondem a palavras vazias.
Não insistirei demais em que a boa educação deve ser negativa: se impedirmos o
nascimento dos vícios teremos feito bastante em favor da virtude. O meio
corresponde à última facilidade na boa educação pública. É preciso manter os
alunos sempre em suspenso, em lugar de submetê-los a um estudo aborrecido, de
tal forma que nada compreendam do que é estudado, e o façam às pressas, por
mera obrigação; devem ser feitos exercícios agradáveis, satisfazendo a
necessidade do organismo que, ao crescer, precisa agitar-se, em uma atividade
que neles não se limitará a isso. Não se deve permitir que brinquem
separadamente, seguindo a sua fantasia, mas deve haver jogos em conjunto, e
públicos, de forma que haja sempre um objetivo comum a que todos aspiram, e que
sejam promovidas a concorrência e a emulação. Mesmo os pais que preferirem a educação
doméstica, instruindo os filhos diretamente sob as suas vistas, devem enviá-los
para os exercícios coletivos. A sua instrução pode ser doméstica e particular,
mas os jogos de que participam devem ser sempre comuns a todos, e públicos; com
efeito, não se trata aqui apenas de ocupar essas crianças, de dar-lhes uma
constituição robusta, tornando-as sadias e ágeis; é preciso habituá-las desde
cedo às regras, à fraternidade, à competição, a viverem expostas aos seus
concidadãos e a almejarem a aprovação pública. Para isso, os prêmios e as
recompensas dos vencedores não devem ser concedidos arbitrariamente pelos
mestres de educação física ou pelos diretores dos colégios, mas mediante sua
aclamação, de acordo com o julgamento dos espectadores. Podemos estar certos de
que esse julgamento será sempre justo, sobretudo se tivermos o cuidado de expor
esses jovens aprendizes ao público, ordenando-os a dar um espetáculo, com
poucos meios. Deve-se presumir assim que todas as pessoas honestas, e os bons
patriotas, assistirão como um dever, e terão prazer nisso.
[...]
Se os filhos são criados em comum, no seio da igualdade, se são
imbuídos das leis do Estado e dos preceitos da vontade geral, se são ensinados
a respeitá-los acima de tudo, se estão cercados de exemplos e objetos que
lembram constantemente a mãe gentil que os nutre a todos, o amor que ela lhes
dedica, os benefícios inestimáveis dela recebidos, e a retribuição que lhe é
devida, não pode haver dúvida de que aprenderão a amar-se mutuamente como
irmãos, a nada pretender que contrarie a vontade da sociedade, que substitua as
ações dos homens e dos cidadãos pelo balbuciar fútil e vão dos sofistas,
tornando-se assim, com o tempo, defensores e pais da nação da qual por tanto
tempo foram filhos.
“Somente um homem não mais educado na escola do egoísmo e da
propriedade privada poderá fazer escolhas políticas com base não nos seus
interesses particulares, mas tendo em vista o bem-estar do conjunto da
sociedade, segundo o princípio da vontade geral”.
Da Religião...
Mesmo
profundamente crítico à interferência da igreja no estado, Rousseau acreditava
que certos aspectos da religião poderiam ser benéficos ao homem e a vida em
sociedade.
Ele não se ateve
a propor uma religião ideal, pois achou problemas em todas elas. Rousseau estava
mais interessado em proteger o homem e a sociedade dos problemas que as
religiões causam. Assim, ele defende que o estado deve permitir que o povo siga
qualquer religião, mas que deva adotar uma base religiosa com certos
fundamentos mínimos, base com a qual todas as outras religiões deveriam
concordar para serem aceitas na sociedade. Tais fundamentos serviriam para
proteger o povo de certos dogmas e valores religiosos que levam à desigualdade
e intolerância.
“O cristianismo é uma
religião muito espiritual, preocupada unicamente com as coisas do céu; a pátria
do cristão não é deste mundo. Cumpre o seu dever, é certo, mas sempre com uma
profunda indiferença quanto ao bom ou ao mau êxito dos seus cuidados. Desde que
nada tenha de que se censurar, pouco lhe importa que as coisas cá em baixo se
encaminhem para o bem ou para o mal. Se o Estado é próspero, ele mal se atreve
a usufruir da felicidade pública; teme orgulhar-se com a glória do seu país; se
o Estado entra em decadência, ele abençoa a mão de Deus que castiga o seu
povo.]...[
Para que a sociedade viva em paz e haja harmonia duradoura, todos
os cidadãos precisariam ser igualmente bons cristãos, sem exceção. Mas se
houvesse, por infelicidade, um só ambicioso ou um só hipócrita — um Catilina,
por exemplo, ou um Cromwell — ele certamente prevaleceria sobre seus piedosos
compatriotas. Logo que aprendesse o segredo de como enganá-los com algum
truque, para apoderar-se de parte da autoridade pública, tornar-se-ia
todo-poderoso. Obedecê-lo corresponderia à vontade de Deus; ele seria o açoite
com que Deus pune os seus filhos. Expulsar o usurpador seria contrariar a
consciência, porque isso exigiria o derramamento de sangue, o emprego da
violência, a perturbação da tranquilidade pública — tudo o que não se coaduna
com a suavidade de um cristão. E, afinal, neste vale de lágrimas, que interesse
tem se vivemos livres ou subjugados por cadeias? O essencial é ganhar o
paraíso, e a resignação não passa de um meio adicional para isso.
Mas estou a cometer um erro ao falar numa república cristã: estas
duas palavras anulam-se uma à outra. O cristianismo prega a escravidão e a
dependência. Tem um espírito tão favorável à tirania que é impossível para esta
não se servir dele. Os verdadeiros cristãos nasceram para escravos, sabem-no e
não se inquietam; esta vida é muito curta e pouco vale aos seus olhos.]...[
O direito que o pacto social concede ao soberano [Estado] sobre os
súbditos [cidadão], não ultrapassa, como já disse, os limites da utilidade
pública. Os súbditos não têm que prestar contas ao soberano das suas opiniões a
não ser que elas digam respeito à comunidade. Ora, interessa muito ao Estado
que cada cidadão tenha uma religião que o leve a amar os seus deveres; mas os
dogmas desta religião só têm interesse para o Estado, e para os seus membros,
na medida em que estes dogmas estão ligados à moral e aos deveres que aquele
que a professa deve cumprir para com o próximo. No restante, cada um pode ter
as opiniões que entender sem que seja obrigado a dá-las a conhecer ao soberano;
porque, como das suas atribuições não fazem parte as coisas do outro mundo, a
sorte dos súbditos para lá da morte não é da sua alçada, contanto que nesta
vida sejam bons cidadãos.]...[
Existe, portanto, uma profissão de fé [declaração de fé], cujos
artigos compete ao soberano fixar, não como dogmas de religião, mas como
sentimentos de sociabilidade sem os quais não é possível ser-se bom cidadão nem
súbdito fiel. Sem que seja possível obrigar alguém a acreditar neles, pode
banir-se do Estado todo aquele que não creia, não como ímpio, mas como
insociável, como incapaz de amar sinceramente as leis, a justiça, de
sacrificar, se for necessário, a vida pelo dever. Todo cidadão deveria
manifestar essa profissão de fé perante as autoridades, reconhecendo
expressamente todos os dogmas. Quem não o fizesse, deveria ser expulso da
cidade, levando consigo em paz todos os seus bens.”
Os dogmas da religião civil devem ser simples, em pequeno número,
enunciados com precisão, sem explicações nem comentários. [...]Quanto aos
dogmas negativos, resumo-os a um único, a intolerância: ela faz parte dos
cultos que excluímos.
Os que separam a intolerância civil da intolerância teológica,
enganam-se, na minha opinião. Estas duas intolerâncias são inseparáveis. É
impossível viver em paz com aqueles que tomamos por malditos; amá-los seria
odiar o Deus que os puniu: é absolutamente necessário recuperá-los ou
atormentá-los. Onde quer que a intolerância teológica seja aceite, é impossível
que ela não provoque efeitos civis.
Hoje, que não existe já, nem pode existir, uma religião nacional
exclusiva, devem tolerar-se todas aquelas que toleram as outras, desde que os
seus dogmas nada tenham de contrário aos deveres dos cidadãos. Mas, todo aquele
que se atreva a dizer: fora da Igreja não há salvação deve ser expulso do
Estado, a não ser que o Estado seja a Igreja e o príncipe, o pontífice.
É preciso olhar o
momento histórico para entender que sua proposta de uma religião civil na forma
de um cristianismo básico é uma tentativa de influenciar a sociedade da época a
promover a tolerância entre as religiões, principalmente entre o cristianismo
católico e o cristianismo protestante.
Ainda que
Rousseau se dissesse um admirador do cristianismo protestante, os detalhes de
sua verdadeira crença só podem ser percebidos nas entrelinhas do conjunto de
sua obra. Para ele, Deus e natureza se confundem. É na percepção da sabedoria
da natureza que Rousseau encontra seu sentido de divino. E é esta sabedoria que
ele busca compreender e seguir. “Tudo é
certo em saindo das mãos do Autor das coisas”, diz ele na abertura de seu
tratado de educação, “Emílio”, mas no
rascunho da obra o autor escreveu diferente: “Tudo é certo em saindo das mãos
da Natureza”[7]. É curioso que em seu original a
palavra “natureza” sempre vinha grafada com “N” maiúsculo como quem se refere a
uma entidade divina, um Deus. Sua obra é repleta de referências como: “Assim é
que a Natureza, que tudo faz da melhor maneira, o institui inicialmente”
(Emílio). Em diversos trechos, a perfeição e harmonia da natureza se confunde
com a do Criador.
Da censura...
Rousseau
acreditava na fragilidade da mente frente à cultura e defendia que a censura
poderia ser um valioso instrumento se estivesse sob o controle direto do
próprio povo.
“Tal como a declaração da vontade geral é feita pela lei, assim a
expressão do juízo público se manifesta pela censura. [...]
Mas longe está o tribunal censório de ser o árbitro da opinião do
povo, é apenas o seu declarante, e, se não se limitar a este papel, as suas
decisões são inúteis e sem valor. É inútil distinguir os costumes de uma nação
daquilo que merece a sua estima porque tende para o mesmo princípio e
necessariamente se confunde. Em todos os povos, não é a natureza, mas a opinião
quem decide na escolha dos seus prazeres. Corrigi as opiniões dos homens e os
seus costumes tornar-se-ão mais puros. Ama-se sempre o que é belo ou o que como
tal se julga, mas deste juízo nasce o engano; e é aqui que é necessário
orientar. Quem julga os costumes, julga a honra e da opinião tira a sua lei. As
opiniões de um povo nascem da sua constituição. Ainda que a lei não determine
os costumes é a legislação que os faz nascer; quando a legislação enfraquece,
os costumes degeneram: e não será o juízo dos censores que fará o que a
forçadas leis não conseguiu fazer.
Daqui se conclui que a censura pode ser útil para conservar os
costumes, mas não para os restabelecer. Institui censores, quando as leis estão
em vigor; mas, logo que elas são esquecidas, perdei toda a esperança: nada de
legítimo pode ter força quando as leis já não a têm.
A censura mantém os costumes ao impedir a opinião de se corromper,
ao conservar a sua retidão pela prática da honestidade, ao apoiá-la, algumas
vezes, quando está hesitante. O uso dos padrinhos nos duelos, levado até ao
furor no reino da França, foi abolido apenas com estas palavras do édito do
rei: «Quanto àqueles que têm a cobardia de recorrer a terceiros». Este juízo,
destinado a modificar a opinião pública, triunfou inteiramente. Mas quando os
éditos afirmaram que era também cobardia bater-se em duelo, o que é verdade,
mas contrário à opinião comum, o povo troçou desta decisão, sobre a qual já
tinha juízo formado.”
A harmonia da
natureza e botânica...
No final de sua
vida, já cansado de ser incompreendido e perseguido, chegou a exilar-se,
esconder-se por um tempo na Inglaterra. Desiludido com a humanidade, já não
acreditava que vivenciaria seu sonho de "felicidade coletiva",
desiludido de tudo e de todos, decidiu refugiar-se nos matos e buscar "a
felicidade particular".
Gradualmente foi
se afastando do convívio social, procurando no silêncio das suas caminhadas alcançar,
na "selvagem solidão", descanso e diversão para uma mente
atormentada. Assim, aos 65 anos, retomou seus estudos de botânica. Fiel às
regras de Lineu, coletou e criou um minucioso catálogo herbário que hoje encontra-se
no Museu Carnavalet, em Paris.
Sentia que caminhar
por entre as plantas, além de sensibilizar a alma, era a oportunidade de
admirar a harmonia reinante e apreciar a imensidão do "belo sistema".
Num
tempo em que as plantas eram estudadas apenas por interesse terapêutico e
medicinal, Rousseau buscou retirar a botânica das farmácias e inseri-la no
contexto das ciências e da história natural.
Ao encerrar uma
de suas últimas caminhadas, no verão de 1777, ele registrou: "É a cadeia
das ideias acessórias que me liga à botânica. Ela reúne e lembra à minha
imaginação todas as ideias que mais a lisonjeiam. Os prados, as águas, os
bosques, a solidão, a paz, e sobretudo o repouso que se encontra em tudo isso
são continuamente retraçados por ela à minha memória. Ela me faz esquecer as
perseguições dos homens, seu ódio, seu desprezo, seus ultrajes e todos os males
com que pagaram minha terna e sincera afeição por eles. Transporta-me para as
claras habitações das pessoas simples e boas como aquelas com quem vivi
outrora. Lembra-me tanto minha infância quanto meus inocentes prazeres, ela me
faz saborear novamente e me torna feliz ainda muitas vezes em meio à mais
triste sorte que já tenha sofrido um mortal"[8].
Tribalismo Científico
A humanidade já
reuniu conhecimento suficiente para adentrar a era do Tribalismo Científico.
Hoje vemos indícios da importância da tribo sendo reafirmada pela ciência
através das pesquisas cognitivas e evolucionárias de Robin Dunbar, além das
pesquisas antropológicas e da psicologia da felicidade de Edward Diener,
pesquisas sobre proximidade física e frequência da comunicação de Thomas Allen,
da velocidade de adaptação genética de Laland e Aoki, das mutações epigenéticas
e os feromônios de James Kohl. Todos embasando a própria hipótese EmGaia.
Sem me referir
especificamente a um país, eu diria que poucas comunidades deste planeta estão
hoje vivendo algo próximo do tribalismo científico.
Provavelmente, mesmo
na Suíça, muitas comunidades hoje vivam em prosperidade e felicidade sem
perceber que por trás de suas crenças e valores existe uma ciência, e até mesmo
desconhecendo que muitos dos detalhes de sua cultura foram cuidadosamente
formulados por ilustres pensadores e conquistados a duras penas.
Se olharmos para
a evolução do conhecimento sobre ciência política e administração pública que a
humanidade coletou desde a época de Rousseau, as inúmeras experiências, o
volume de dados estatísticos disponíveis, veremos que a grande maioria da
humanidade evoluiu muito pouco ou até regrediu.
Atualmente, mesmo a Suíça está sendo
contaminada pela globalização e suas tradições estão mudando. Acredito que
única saída para o povo suíço seja erguer, rapidamente, medidas protetivas
contra as influências das mídias de massa, da dependência digital, da nomofobia
que hoje transforma as crianças e jovens em marionetes do consumismo (algo que
já vinha ocorrendo há décadas, quando a televisão tornou-se o centro das salas
e tomou o lugar das conversas familiares). Hoje, devido aos smarphones, o mundo
virtual está cada vez mais sedutor e pode nos acompanhar 24 horas.
A dependência
digital já está sendo tratada como dependência química e é considerada um problema
de saúde pública em vários países, como o Japão. Certamente as tecnologias poderiam
ser um instrumento útil, mas precisamos atentar para a fragilidade de nossas
mentes subconscientes. Estas mídias, sem uma censura de conteúdo, tornaram-se
um instrumento de controle mental ardilosamente explorado por grandes empresas.
Esta “droga” na mão das crianças está condenando à escravidão nossas futuras gerações. Cada
vez mais tanto crianças quanto adultos gastam seu curto tempo de vida consumindo
grandes volumes de informação inútil e improdutiva, deixando de viver o mundo
real, o mundo do toque físico e do olho no olho. Isto está
comprometendo não só as relações sociais, mas à medida que nos afastamos do
estilo de vida integrado com a natureza, nos tornamos menos autossuficientes,
mais dependentes, mais frágeis, mais ansiosos, mais frustrados e infelizes. Longe
do programa genético de nossa espécie, nossa saúde física e mental fica
comprometida e nosso sentido da vida se perde.
Agora é hora de
darmos um salto evolutivo. Já temos o conhecimento para esta nova cultura, capaz
de reunir homem e natureza em projeto comum. Este é o momento de assumirmos
nossa responsabilidade com nossa origem e história. É hora de assumirmos que
somos parte deste ser global que é Gaia, e que todos somos um só organismo
buscando evoluir e perpetuar.
Tribalismo Subconsciente ou EmGaia
Podemos imaginar
que no futuro o Tribalismo Cientifico será complementado pelo Tribalismo
Subconsciente ou EmGaia.
À medida que o
estilo de vida tribal proporcionar maior integração entre nossos subconscientes
diversas mudanças irão ocorrer. Libertaremos habilidades do homem primitivo
adormecidas pelo homem moderno e percebermos que somos capazes de gerar um ser
tribal, um nível de inteligência coletiva superior, capaz de interagir com Gaia
e remodelar os indivíduos em nível epigenético e genético.
Princípios do Projeto EmGaia
Diante de todas
as pesquisas cientificas e hipóteses aqui apresentadas e inspirados pela história
e sucesso da Suíça, elencamos alguns princípios básicos que devem nortear o
Projeto EmGaia.
A Hipótese EmGaia
Antes de
prosseguirmos, vamos relembrar a Hipótese EmGaia que fundamenta a filosofia e o
projeto EmGaia.
Hipótese EmGaia:
O subconsciente é
como um segundo ser que habita nosso corpo. Constantemente processando 1 milhão
de vezes mais informação que o consciente. Ele nos controla profundamente.
Assim como todos
os seres, não nascemos totalmente vazios, nascemos com um programa
filogenético. Um programa ancestral que nossos subconscientes buscam executar.
Devemos perceber que parte do programa filogenético resulta da experiência
evolutiva de bilhões de anos da inteligência imensamente superior de Gaia.
Todos os seres
possuem um equivalente à nossa mente subconsciente. Os subconscientes têm por
atividade principal, gerar inteligência coletiva. Eles promovem inúmeros meios
de comunicação, memória e processamento coletivo, tanto interno quanto externo
ao corpo. Deste modo, externamente sustentam uma rede de comunicação, memória e
processamento coletivo com todos os demais seres vivos, contribuindo para gerar
a inteligência que denominamos Gaia.
Internamente, o
próprio subconsciente resulta principalmente da inteligência coletiva das
células de nosso cérebro e todo sistema nervoso. Sua função essencial é servir
de interface entre o ambiente exterior e o interior. Dentro de Gaia, os
subconscientes dos seres também geram outras dimensões de inteligência coletiva
exterior, como alcateias, colmeias, cardumes e as tribos humanas.
Essencialmente, os subconscientes mantem um fluxo de informação entre todas as
dimensões da vida. Isto fica mais evidente quando percebemos a interação entre
o ambiente, células, neurônios, epigenoma, subconscientes, feromônios, tribos,
genética, Transferência Horizontal de Genes, etc.
O subconsciente
humano tem sua história evolutiva vinculada à dimensão tribal. Grupos entre 50
e 230 indivíduos, por conta do convívio intenso de seus subconscientes, geram
uma inteligência coletiva que denominamos “Ser Tribal”. Esta é a forma e a
dimensão do grupo natural Humano. Somente o Ser Tribal é capaz de promover
completa e intensa influência modeladora sob todas as dimensões dos indivíduos.
Principalmente comportamental, epigenética e genética.
É somente através
do pertencimento a um ser tribal que o indivíduo humano pode experimentar a
plenitude da sua natureza e o seu potencial máximo de felicidade.
Portanto, retomar
o estilo de vida tribal é uma necessidade. Somente o “Ser Tribal” tem o poder
de recolocar o consciente do homem em sintonia com seu subconsciente, sua
sociedade e Gaia.
Nosso modelo
atual de vida, não tem proporcionado os elementos necessários para que o “Ser
Tribal” ocorra ou que se desenvolva em sua plenitude. Cientes disto, o foco da
Filosofia e do Projeto EmGaia é promover e difundir um estilo de vida que nos
permite reencontrar este estado esperado por nosso ser subconsciente e Gaia.
“Um ser humano é uma parte deste todo, chamado por nós ‘Universo’,
uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experimenta a si mesmo, seus
pensamentos e sentimentos como algo separado do resto — numa espécie de ilusão
de ótica de sua consciência. Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós,
restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e ao afeto por pessoas mais
próximas a nós. Nossa tarefa deve ser a de nos livrarmos dessa prisão,
ampliando nosso círculo de compaixão para que ele inclua todas as criaturas
vivas e toda a natureza em sua beleza. Ninguém é capaz de conseguir isso
completamente, mas o esforço para tal realização é em si uma parte da
libertação e um alicerce para nossa segurança interior”.
- Albert Einstein
SOCIEDADE
Princípio da Responsabilidade Existencial
Mesmo que você
não tenha escolhido existir e que, originalmente, a responsabilidade por sua
existência e desenvolvimento tenha sido de seus pais. Gradualmente esta
responsabilidade foi sendo transferida a você, à medida que foi tornando-se
potencialmente capaz de independência e autossuficiência.
Para nós, seres
humanos pertencentes a Gaia, amadurecer implica em e ter consciência de que dependemos
de uma complexa teia da vida e nossa simples presença afeta o ambiente e interfere
com a existência de outros seres. Há uma responsabilidade tanto em agir como em
não agir, como quando alguém, ao ver um acidente, omite socorro ao necessitado,
ou quando vemos, passivos, um barco baleeiro exterminando os últimos indivíduos
de uma espécie. Um ser realmente inteligente precisa perguntar-se: Até
que ponto estes atos afetam minha vida e o equilíbrio da vida como um todo? O
que fazer quando o ato de um outro ser está comprometendo a minha qualidade de
vida, ou pior, condenando a extinção meus filhos, netos e toda humanidade?
Para todo lado,
ouvimos discursos sobre os direitos humanos, mas e os deveres humanos? Este tema me leva a reflexão do sentido que damos à
palavra liberdade. Em ambas as palavras “direitos” e “liberdades”, a humanidade
está sempre buscando ampliar ou garantir seu poder de ação sobre os outros e
sobre o mundo. Porém, todas as vezes em que tratamos do tema “liberdade”,
constatamos que ela só pode ocorrer dentro dos limites da “responsabilidade”.
A célebre frase “a liberdade de um termina onde começa a
liberdade do outro” parece nos conferir o direito de agir livremente
pensando apenas na responsabilidade que temos para com outros seres humanos de
nossa sociedade e em nosso tempo. Mas como ficam os outros seres vivos e as
gerações futuras?
Precisamos
abandonar está visão egocêntrica de liberdade. Na verdade, a palavra liberdade
já está tão carregada de definições egocêntricas que deveria ser evitada. Quando
refletimos sobre ideia de liberdade frente a realidade da vida e da natureza,
podemos perceber que somos extremamente dependentes de nosso contexto físico e
biológico. Estamos limitados a viver dentro de certos limites de radiação,
pressão atmosférica, umidade, respirando esta mistura de gases e nutrindo-se de
minerais e moléculas específicas produzidas somente por seres específicos que
habitam este mesmo planeta. Nossa liberdade está profundamente limitada
e conectada a todos os seres e elementos deste planeta, sistema solar e
universo.
Vivemos em um
ambiente onde tudo se afeta mutuamente, e portanto, à medida que agimos ou nos
omitimos, nos tornamos vítimas e responsáveis por tudo. Um exemplo é a
destruição da camada de ozônio, que está gradualmente nos privando de andarmos
livremente sob o sol. Somos vítimas e responsáveis, seja por ação ou omissão. Quando
compreendemos que tudo está interligado, e que somos responsáveis pela
perpetuação de Gaia, compreendemos que todo ato que atenta contra o equilíbrio
e perpetuação de Gaia, atenta contra cada um de nós! Precisamos passar
a assumir a preservação de Gaia como um problema pessoal. Temos não apenas o direito de defende-la,
mas o dever moral, afinal, ela é que sustenta nossa vida. Este dever deve
estar acima de qualquer direito individual do ser humano.
- Nenhum direito
individual pode estar acima do direito à perpetuação de todos os seres vivos e suas
gerações futuras!
Assim, a
responsabilidade existencial nos conduz a reflexão de que só poderiam falar de
direitos os que cumprem seus deveres existenciais. Como disse José Saramago em
seu discurso de recepção do Prémio Nobel de Literatura em 1998:
“Tomemos então,
nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma
força com que reivindicarmos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever
dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor”.
Saramago e diversos líderes mundiais têm lutado para abrir os olhos do povo e
fazer com que todos assumam sua responsabilidade existencial. Atualmente há
movimentos buscando a criação de uma “Declaração Universal dos Deveres Humanos” a fim de complementar
à já existente “Declaração Universal dos Direitos Humanos”.
Precisamos
defender um conceito de liberdade que surja de uma visão mais ampla e realista,
focado em Gaia e não em valores humanos, no qual crenças e valores culturais
não invadam o direito individual e natural de cada ser (direitos que ele teria
ou deveria ter se escolhesse viver isolado da sociedade). Impor nossas crenças
e valores culturais a outro ser é um absurdo que precisamos superar.
Nossa liberdade
termina com nossa responsabilidade existencial, termina quando nossos atos e
omissões afetam o equilíbrio natural e o direito de perpetuação de outros seres
e das futuras gerações.
Dentro da
filosofia EmGaia, a ideia de que somos parte deste superorganismo não apenas
nos leva a perceber nossa responsabilidade, mas nos leva a perceber que estamos
aqui em uma missão, a missão de contribuir para a perpetuação de Gaia e,
portanto, de cada ser que sustenta esta intrincada teia da vida.
Princípio da Empatia
A piedade representa um sentimento natural que, moderando em cada
indivíduo a ação do amor de si mesmo, concorre para a conservação mútua de toda
a espécie. Ela nos faz, sem reflexão, socorrer àqueles que vemos sofrer; Ela,
no estado de natureza, ocupa o lugar das leis, dos costumes e da virtude, com a
vantagem de ninguém sentir-se tentado a desobedecer sua doce voz; Ela impedirá
qualquer selvagem robusto de tirar a uma criança fraca ou a um velho enfermo a
subsistência adquirida com dificuldade, desde que ele mesmo possa encontrar a
sua em outra parte [...] (Rousseau, 1987b, p. 58).
Princípio do Planejamento Familiar
Precisamos
perceber que o modelo capitalista, baseado em crescimento populacional para
geração de mais trabalhadores, renda e consumo, é uma bola de neve
autodestrutiva e insustentável. Na maioria dos casos, crescimento populacional
não representa progresso, pelo contrário, é um regresso, pois, com o constante
crescimento populacional, a estrutura social existente está constantemente
tornando-se insuficiente e precisando ser aumentada.
Hoje, nas
comunidades onde há constante crescimento populacional, grande parte do
potencial econômico é constantemente consumido para aumentar a produção de
alimentos, de serviços, creches, escolas, hospitais, casas, empregos... Não se
busca o aumento da qualidade, mas da quantidade. Esta é a realidade dos países
subdesenvolvidos, nos quais sempre se investe em quantidade e se esquece da
qualidade. É como tentar tirar a água de uma canoa furada enquanto, a cada
minuto, novas pessoas aparecessem para subir na canoa. Assim como a canoa tem
um limite de passageiros, o planeta também tem.
A cada 2 meses, a
população mundial aumenta em torno de 12 milhões de pessoas (equivalente à
população de uma cidade como São Paulo, Nova York ou Tokyo). Precisamos ter
consciência de que a humanidade precisa de um modelo social ecologicamente
sustentável, e para isto tem de haver planejamento. Isto implica em igualdade
de direitos e responsabilidades.
Não é apenas a
sustentabilidade que está em jogo, a justiça social também é afetada pela falta
de planejamento familiar. Se há um planejamento familiar, cada família que gera
filhos além do planejado prejudica os filhos de todos os demais casais. Esta
criança gera custos extras para toda sociedade, pois provoca a necessidade de
ampliação de toda a estrutura social a fim de atender com qualidade as
necessidades da criança extra. Em outras palavras, em uma sociedade justa,
todas as famílias devem estabelecer um planejamento familiar e ter a
consciência de que ao desrespeitar este planejamento estão prejudicando e
desrespeitando a todos.
No Brasil, a
Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), feita em
2006 e financiada pelo Ministério da Saúde, revelou que 46% das gravidezes não
foram planejadas.
Na Suíça o aborto
é legalizado, e mesmo assim a taxa de abortos é uma das menores do mundo. Em
2011, a taxa era de 6,8 por mil mulheres com idades entre 14 e 44 anos, um
número extremamente baixo comparado ao do Reino Unido (17,5), França (15 em
2009) e os Estados Unidos (16 em 2008). Isto equivale dizer que, na Suíça,
devido a educação e o amplo acesso a métodos contraceptivos, as gravidezes
indesejadas representa, um número próximo a 1%.
Ainda assim, na
Suíça foi lançada há pouco uma iniciativa do comitê Ecologia e População
(Ecopop), promovendo a votação de uma redução interna de seu crescimento
populacional visando a preservação dos recursos naturais para as futuras
gerações e também um apoio financeiro a programas de planejamento familiar em
outros países.
Princípio da autonomia sobre o próprio corpo
Este é um direito
que se consolida com nosso desenvolvimento. Quando nascemos, somos como a extensão
do corpo de nossa mãe e, gradualmente, vamos assumindo nossa autonomia. Para
muitas culturas, há um ritual simbólico que demarca o início da vida adulta e
traz consigo a autonomia plena sobre o corpo e a vida no aspecto físico,
psicológico, cultural e até jurídico.
Como afirmou
Edward Hall, pioneiro na reflexão científica sobre o tema do “espaço pessoal”, as
pessoas mantêm entre si um espaço que pode ser classificado como íntimo, pessoal,
social e público. O espaço pessoal é definido como a área ao redor do corpo,
que normalmente só permitimos que certas pessoas ultrapassem[9].
Segundo Hall, o
espaço íntimo é a distância na qual é possível praticar o amor, lutar,
confrontar e proteger-se. Neste espaço, a possibilidade de contato físico é
predominante na percepção das pessoas, e estas se comunicam não apenas por meio
das palavras, mas também do tato, cheiro e calor do corpo, sendo a
ultrapassagem deste espaço permitida somente a familiares, filhos e namorados.
O espaço pessoal
é definido por Hall[10] como uma espécie de “bolha” que as
pessoas criam em torno de si, e que apresenta uma distância de 50 a 120
centímetros, normalmente superior à extensão do braço, mas que varia conforme a
cultura e o ambiente.
Para Sommer, “a
violação da distância individual é a violação das expectativas da sociedade; a
invasão do espaço pessoal é uma intrusão nas fronteiras do eu da pessoa” [11]. Hall[12] também utiliza o mesmo conceito,
afirmando que a percepção do eu está associada ao processo de delimitar
fronteiras; deste modo, quando alguém se aproxima demais, ocorre uma invasão do
eu. Segundo Sommer[13], o espaço pessoal é uma área
carregada de conteúdos emocionais; assim, esta área é interpretada pelas
pessoas como sua, seu espaço. A vida moderna nos impõe situações que provocam
stress quanto a isto. Ao entrar em um trem superlotado, o espaço pessoal
provavelmente desaparecerá, pois as pessoas não só estarão próximas como haverá
contato físico entre elas.
Segundo Sommer,
quando estamos num ambiente lotado e somos obrigados a ficar muito perto de
alguém, procuramos desviar o olhar, dar-lhe as costas ou ainda, em caso de
contato físico, enrijecemos completamente o músculo em que se dá o contato. O
espaço pessoal representa uma margem de segurança, ou seja, no momento em que
um estranho penetra este local, surge imediatamente uma reação de esquiva ou de
enfrentamento, sendo que a intensidade da reação pode depender da relação de
domínio que o invasor possui sobre o invadido na hierarquia social e também do
tipo de pessoa que é invadida em seu espaço. Segundo Hall[14], isto ocorre porque todos os animais,
incluindo os seres humanos, têm uma exigência mínima de espaço, sendo a
sobrevivência impossível sem ele.
É fácil
percebermos que o conceito de espaço pessoal está relacionado com os conceitos
de territorialidade, privacidade e densidade. Em alguns estudos sobre o tema,
observou-se que a alta densidade populacional que provoca a falta de espaço
está correlacionada com o crime e a violência. Hall[15] aponta que a superpopulação pode
produzir alguns comportamentos como a agressão.
Outra forma de
invasão do “espaço pessoal” é feita pela próprio Estado. Sociedades mais
esclarecidas têm assumido que uma sociedade não pode ser considerada livre se
seus membros não tiverem o direito fundamental de dispor de seus próprios
corpos. A essência do direito à liberdade é justamente a autonomia sobre o
próprio corpo.
Infelizmente, em
países mais atrasados, o direito ao próprio corpo ainda está longe de ser
reconhecido como um direito fundamental da pessoa humana. As normas limitando a
autonomia dos corpos estão por todas as partes. O artigo 13 do Código Civil
brasileiro afirma: “salvo por exigência
médica, é defeso o ato de disposição do próprio corpo, quando importar
diminuição permanente da integridade física, ou contrariar os bons costumes”.
Neste simples
artigo, está a essência de uma concepção de estado violador de direitos
naturais. Responda: Somos um objeto que pertence a sociedade? A sociedade
necessita ter este poder sobre meu corpo? Se acreditamos na igualdade e liberdade como
fundamentos de nossa sociedade, como podemos concordar em dar ao estado o poder
de decidir sobre o que podemos fazer com nossos corpos?
As sociedades
humanas criaram este ser ficcional que chamamos de Estado, e deram a ele
direitos e poderes absurdos e antiéticos. Ainda sobre a invasão do espaço,
convém refletirmos: todos nascemos como seres da natureza; infelizmente, as
gerações de seres humanos que nascerem antes resolveram se intitular donos das
terras e de todos os recursos naturais, criaram linhas imaginárias sobre o
globo e proclamaram-se donos do planeta; criaram leis, polícias, exércitos,
religiões e culturas que sustentam seus atos de dominação. Assim, os “donos”
dos recursos naturais podem vender aos “desafortunados” o que pertence a todos
os seres vivos.
Acredito que
gerações futuras olharão para nosso tempo como olhamos hoje para tempos de
ignorância, barbáries, genocídios, escravidão, exploração, etc., absurdos já
percebidos pela avançada percepção de um índio como o Cacique Seattle. Em 1854,
em uma reunião pública onde o representante do presidente norte-americano
Franklin Pierce o pressionou a vender as terras de sua tribo, ele discursou ao
seu povo, representantes do governos e jornalistas ali presentes dizendo:
“O grande chefe
de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe
assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte,
pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém,
pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá
com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no
que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem
confiar na alteração das estações do ano.
Minhas palavras
são como as estrelas que nunca empalidecem.
Como podes
comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia nos é estranha. Se não
somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes
comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha
reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta
escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na
consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as
recordações do homem vermelho.
O homem branco
esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai vagar por entre as
estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe
do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores
perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos
irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de
um mustang, e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando
o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele
exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um
lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos
seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra.
Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.
Esta água
brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de
nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é
sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo
espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida
de meu povo. O rumorejar d'água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos
irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam
nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a
teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios
a afabilidade que darias a um irmão.
Sabemos que o
homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é
igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira
da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e
depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus
antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não
se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos
à herança. Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu - como coisas que
podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua
voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.
Não sei. Nossos
modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do
homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem
que de nada entende.
Não há sequer um
lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o
desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das assa de um inseto. Mas
talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece
apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a
voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um
brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave
sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio
vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro.
O ar é precioso
para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os
animais, as árvores, o homem.
O homem branco
parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia,
ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te
lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a
vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de
vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra,
deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio
homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores
campestres.
Assim pois, vamos
considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei
uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem
seus irmãos.
Sou um selvagem e
desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões
apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros
disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um
fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós -
os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.
O que é o homem
sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande
solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao
homem. Tudo está relacionado entre si.
Deves ensinar a
teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos
antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a
riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que
temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra -
fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles
próprios.
De uma coisa
sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso
temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma
família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os
filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um
fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.
Os nossos filhos
viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso
da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo
com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde
passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas,
mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta
terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará, para
chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de
confiança como o nosso.
Nem o homem
branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser
isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de
uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso
Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito
como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade
inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta
terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu
criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras
raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em
teus próprios desejos.
Porém, ao
perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os
trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre
esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois
não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os
cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita
gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o
emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar
adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para
sobreviver.
Compreenderíamos,
talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as
esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as
visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para
o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para
nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se
consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez,
possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último
homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma
nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo
nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater
do coração de sua mãe”.
Acreditamos que
nosso modelo de social é mais avançado que os modelos primitivos. Não percebemos que nos aspectos mais
importantes da vida somos nós os atrasados. Vivemos em sociedades de grandes
contrastes, poucos com grande riqueza material e tecnologica misturada a muitos
sobrevivendo na miséria e ignorância. Este não é mais o planeta das tribos de
10.000 anos atrás, onde podíamos prosperar apenas formando tribos e procurando
alguma terra devoluta para viver. Nascemos em uma época onde tudo possui dono e
todo os nosso movimento são controlados por leis - leis de gerações passadas,
definidas sem nossa participação, por vezes absurdas, saídas de algum livro religioso
ou de algum grupo de poder que se achou no direito de impor sua vontade - Leis que
versam sobre foro íntimo como: eutanásia, relacionamentos amorosos,
sexualidade, aborto. Tudo em nome de um suposto bem maior ou valores morais. A
maioria destas normas de regulação dos corpos, porém, não existe para evitar
que haja lesão a direito alheio, mas tão somente impõe um modelo de conduta que
a maioria julga adequado.
Um estado
democrático não deveria se comportar como uma ditadura da maioria. As
liberdades individuais só podem ser limitadas se – e somente se – o exercício
de uma determinada autonomia provocar danos a outros seres, ou em uma sociedade
por livre adesão onde tais limites foram previamente aceitos por todos. E este
é o modelo social que defendo! Que as sociedades se formem por adesão
espontânea e comprometimento com regras, crenças e valores previamente
pactuados. Se não há acordo prévio, as pessoas maiores de idade e mentalmente capazes
deveriam ser livres para dispor sobre seus próprios corpos. Na prática, porém,
o Direito está repleto de normas que limitam ações que pouco afetam a
terceiros.
Pessoalmente, sou
homem, heterossexual, branco, alfabetizado, etc. Sempre evitei nutrir qualquer
tipo de preconceito quanto ao valor de um ser humano. Para mim, sempre foi a
compatibilidade de valores e objetivos que determinou minhas amizades. Desde a
minha juventude já percebia na capacidade de perpetuação o objetivo maior da
vida, e neste sentido, quanto mais estudo, mais percebo que a diversidade é
fundamental para evolução! Portanto, não me importo com títulos ou grau de
instrução, com as opções sexuais, com a cor da pele, como come, dorme ou em que
deus acredita. Se o convívio com esta pessoa aumenta ou melhora minha
capacidade de perpetuação, me sentirei grato e honrado por conviver com ela.
Mas, em outro sentido, se o convívio com ela diminui ou dificulta minha capacidade
de perpetuação, buscarei evitar este convívio. Claro que em todo convívio há
ganhos perdas, cabe a nós avaliarmos. Por isto acredito que devemos buscar formar
conceitos e não preconceitos.
Só o tempo e a
boa vontade nos permitem conhecer o outro a ponto de formularmos um conceito.
Acredito que precisamos superar nossas hipocrisias e falar abertamente.
Precisamos expor nossos pensamentos a fim de evitarmos viver em um mundo de
mentiras e repleto de pessoas infelizes.
A sexualidade
sempre foi campo fértil para as limitações jurídicas sobre os corpos. No
passado, os adultos solteiros que tivessem relacionamento sexual eram punidos
pela lei (a chamada fornicação). Ainda hoje, consta como regulação sexual do
código penal brasileiro o artigo 234, que pune com pena de até 2 anos quem
“fizer, importar, exportar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de
comércio, de distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura,
estampa ou qualquer objeto obsceno”. Perceba que nem em sua privacidade você
pode desenhar ou ter para si algo obsceno. Pelo menos, pensar em algo obsceno não
é proibido nesta lei. Mas não fique tão feliz! Sempre há as religiões e suas
inúmeras leis divinas.
A importância do
reconhecimento de um direito fundamental ao próprio corpo vai muito além da
liberdade sexual. São nos direitos à vida e à morte que a regulação jurídica
dos corpos se manifesta de forma mais evidente. Questões como aborto,
eutanásia, esterilização e muitas outras são reguladas pelo direito, em regra
dando pouquíssima liberdade aos interessados de disporem de seus próprios
corpos.
Vê-se com clareza
isso no direito ao aborto, reconhecido na maioria absoluta dos países da Europa
e dos estados americanos. No Brasil, por uma nítida influência religiosa,
criou-se a ficção jurídica de que o embrião não é parte do corpo da mãe, e já
teria direitos a partir da concepção.
É nítido que,
pela condição natural, somente ao indivíduo cabe o controle de seu corpo, podendo
este livremente determinar os valores e princípios a que submete o seu corpo e,
portanto, só a ele cabe definir a continuidade ou não da gestação.
Qualquer
interferência de outro ser ou associação de seres (sociedade ou Estado) é ato
de brutal interveniência no que não lhes afeta, e se de algum modo possa afetar
um terceiro, seja física e/ou psicologicamente, certamente o fará muito menos
que a gestante.
Forçar uma mulher
a gestar contra sua vontade é pior do que forçar alguém a passar nove meses
doando sangue para salvar uma vida. Ainda que envolva leis ou valores de um
sociedade, a liberdade e o direito sobre o próprio corpo virá sempre antes.
Naturalmente, a
existência deste novo ser decorre de sua geradora e sua existência permanecerá
sendo reponsabilidade dela até que este novo ser tenha poder de
autossuficiência e consciência de sua responsabilidade existencial.
Como já
mencionamos em outro capítulo, o aborto assistido é atualmente praticado em
muitos países de primeiro mundo. No Uruguai, o aborto não é crime, mas para
conseguir a interrupção legal as mulheres têm de passar por uma consulta com
ginecologista, psicólogo e assistente social. Após cinco dias de reflexão, a
paciente deve expressar sua decisão final, e então o aborto deve ser realizado
de forma imediata e sem obstáculos, em hospitais públicos ou privados. Isto não
apenas ajudou a diminuir os índices de abortos em decorrência da maior informação
e apoio psicológico, mas reduziu as mortes a zero. Antes da legalização, mais
de 30% das mulheres morriam em decorrência das complicações dos abortos
clandestinos.
Em relação à
regulação da morte, as restrições também são várias. A eutanásia é punida como
homicídio e o suicídio assistido é punido com pena de até 6 anos, obrigando-se
muitas vezes o indivíduo, mesmo quando consciente, a levar uma sobrevida
vegetativa contra sua vontade.
O estado
brasileiro se atreve até mesmo a regular disponibilidade de nossos corpos na
vida conjugal. A esterilização cirúrgica de pessoas casadas só pode ser
realizada com o consentimento expresso do cônjuge.
Somos herdeiros
de uma cultura religiosa que impôs ao longo da história uma infinidade de
restrições morais (e posteriormente jurídicas) quanto ao uso de nossos próprios
corpos. Se uma conduta não lesa, ou ao menos gera riscos de lesão a direitos
alheios, não há por que ser proibida.
Por este motivo,
defendo que a disponibilidade do corpo é naturalmente personalíssima, não
devendo o estado adentrar nestes temas. Para evitarmos possíveis conflitos
sociais, como defendia Rousseau, toda sociedade deve ser construída sobre a
figura de um contrato, onde direitos e deveres, limites e liberdade são
previamente estabelecidos e pactuados por todos.
Princípio da sintonia da Hierarquia de Valores
Até que ponto
somos capazes de entender e respeitar os valores uns dos outros?
Como já
verificamos em capítulos anteriores, nosso subconsciente é que nos guia. E ele
é, essencialmente, um reflexo da sociedade ou tribo. Nossas atitudes refletem
nossos valores morais e éticos que foram absorvidos da cultura e educação.
Como exemplo: enquanto
as mulheres afegãs que vivem na Europa lutam pelo direito de usar a burca[16] e seguir sua fé, as mulheres
ocidentais as julgam ignorantes e lutam por proibir o uso da burca.
Muitas diferenças
culturais não geram transtornos - se os indianos comem com as mãos, os
japoneses com pauzinhos e os ocidentais com talheres, isso não parece impedir o
convívio entre estas culturas.
Existem, no
entanto valores que levam a situações invasivas e polêmicas onde as liberdades
individuais são desrespeitadas por uma sociedade ou, inversamente, a cultura de
uma sociedade é inviabilizada pelos direitos individuais de poucos.
Definindo onde
começam e terminam limites e liberdades de indivíduos e da sociedade é algo
complexo, tais como o direito de aborto assistido (praticado em muitos países
de primeiro mundo). Podemos citar o exemplo do Uruguai, onde o aborto não é
mais crime, mas para conseguir a interrupção legal, as mulheres têm de passar
por uma consulta com ginecologista, psicólogo e assistente social. Após cinco dias
de reflexão, a paciente deve expressar sua decisão final, e então o aborto deve
ser realizado de forma imediata e sem obstáculos, em hospitais públicos ou
privados. Isto não apenas contribuiu na diminuição dos índices de aborto em
decorrência da maior informação e apoio psicológico, mas reduziu as mortes a zero. Antes da legalização, mais de 30%
das mulheres morriam em decorrência das complicações dos abortos clandestinos.
Cito este tema
extremamente polêmico, pois diz respeito a valores mais importantes que
constituem a base de nossa hierarquia de valores. É sobre eles que alicerçamos
os demais, e é desta hierarquia que emana as escolhas que tomamos na vida.
São estes valores
éticos e morais que constroem culturas felizes ou infelizes, prósperas ou decadentes.
Muitas vezes, a vida nos impõe dilemas onde não há a opção de um final feliz. A
escolha é inevitável e nenhum resultado é agradável. Como no clássico dilema do
bonde.
Imagine que você
está pilotando um bonde que acaba de perder os freios. Logo à frente há um
túnel estreito onde, no momento, estão trabalhando cinco pessoas que certamente
serão mortas pelo bonde. Antes deste túnel, há um desvio para outro túnel
estreito, onde há apenas uma pessoa. O dilema é assumir a escolha entre “não
agir” e matar cinco pessoas ou “agir” e matar apenas uma. Não há tempo para
nenhuma outra ação. Qual seria sua escolha?
Esta escolha pode
parecer fácil, mas pode tornar-se complexa se a pessoa sozinha for uma pessoa
que você ama.
A clássica
variante deste dilema é a de que você está na estação e pode parar o bonde
empurrando um grande e gordo homem sobre os trilhos, pois este possui peso
suficiente para ativar freios automáticos que parariam o trem antes que matasse
os cinco trabalhadores no túnel. Geralmente as pessoas mudam de opinião quando
a decisão envolve o contato físico. Mas basta imaginar que uma das cinco
pessoas é a pessoa que você ama e tudo se complica novamente.
Nossa hierarquia
de valores nos define. Ela é implacável sobre nossos atos e, como já foi explicado,
ela decorre de nossa sociedade, de nossa tribo.
Portanto, no
momento da formação de uma nova tribo, devemos ter em mente que os valores da
tribo serão profundamente influenciados pelos valores dos membros que a
integrarão. Os valores que os membros adquiriram ao longo da vida, serão mais
determinantes que quaisquer novos valores, regras ou leis impostas.
“O mundo, tal como é conhecido
atualmente, estrutura-se em torno do dinheiro”, afirmou a antropóloga americana Ruth
Benedict com relação aos valores que norteiam uma cultura predominante. No
passado, astecas organizavam a vida em torno de sacrifícios humanos, antigos
egípcios, em torno da morte. Já a cultura do Tibet está centrada nos rituais e
meditações do budismo. No leste africano, os sistemas culturais de algumas
tribos são focados no gado. O gado está presente nas músicas, nos rituais e na
vida cotidiana. Evans-Pritchard, antropólogo inglês (1940), descreveu que
mulheres se autodenominam de vacas e chamam os maridos de touros. Conforme Weatherford[17], vacas e bois são a linguagem social
da vida na tribo Nuer.
Para nossa
cultura moderna parece difícil compreender como a vida pode ser tão
influenciada por vacas e bois, ou mesmo meditações. Do mesmo modo, para esses
povos seria difícil compreender como nossa vida pode estar tão atrelada a uma
abstração chamada dinheiro, pedaços de papel que atribuímos valor imenso. Uma
ilusão que só desmorona diante de uma crise alimentar como a de 1929, onde o
dinheiro servia apenas para alimentar o fogo.
Devemos perceber
que ao criarmos uma tribo, o ser tribal assumirá uma personalidade derivada dos
valores de cada integrante. Num segundo momento, este ser tribal acomodará
estes valores num conjunto único, uma espécie acomodação dos valores de todos e
que passará a representar os valores do próprio ser tribal. O resultado, ao
longo do tempo, será a modelação e convergência dos valores de cada indivíduo
no sentido de igualar-se aos valores do ser tribal. No entanto, estes valores
só serão realmente homogeneizados ao longo de gerações.
Neste sentido,
devemos, previamente, buscar identificar a hierarquia de valores que cada
membro traz consigo. Cada indivíduo já vem moldado por um grupo. Claro que esta
nova tribo que está surgindo exercerá uma força modeladora sobre todos, e
certamente todos sofrerão algum grau de transformação em seus valores, mas
serão necessárias algumas gerações para que tenhamos um grupo profundamente
sintonizado.
[1] Referências:
Nascimento, 2004. Rousseau, 1999a. _____. 1983a. _____. 2001. _____. 1983b.
_____. 1999b. Silva In: Silva; Costa; Barbosa. 2010. Da Silva, 2010. Henkes,
2010. Filho, 2003. Verbicaro, 2010. Maria, 2010. Rousseau, 2010.
[2] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Contrato
Social. Lisboa: Editorial Editorial Presença. Tradução de Mário Franco de
Sousa. Original. Du Contract Social, 1760.
[3] Obra que reúne todos os conhecimentos
humanos e os expõe de maneira ordenada, metódica, seguindo um critério de
apresentação alfabético ou temático.
[4] Rousseau, 2004.
[5] Rousseau,1987a.
[6] Rousseau, 1987b.
[7] Jimack, 1960.
[8] Devaneios, p. 102.
[9] Argyle; Trower, 1981; Hall, 1989.
[10] Hall, 1989.
[11] Sommer, 1973.
[12] Hall, 1989.
[13] Sommer, 1973.
[14] Hall, 1989.
[15] Hall, 1989.
[16] A burca é uma veste feminina que
cobre todo o corpo, até o rosto e os olhos, porém nos olhos há uma rede para se
poder enxergar. É usada pelas mulheres muçulmanas ou islamistas e é um símbolo
da religião.
[17] Weatherford, 2005.
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